A nova classe operária vai ao paraíso (e vence o Festival de Veneza)

Fotografia: Searchlight Pictures

Inspirada no livro homônimo de não ficção de Jessica Bruder, o longa acompanha a trajetória de uma mulher que, afogada por sua situação econômica, vai morar num trailer.

Álex Vicente

Fonte: El País Brasil
Data original da publicação: 12/09/2020

Chegou precedida dos melhores rumores e não decepcionou. Nomadland, longa-metragem que encerrou nesta sexta-feira a seção competitiva do Festival de Veneza, foi o primeiro a ser aplaudido de pé nesta edição e venceu o Leão de Ouro na noite desta sábado, premiado por um júri presidido por Cate Blanchett. Lançado simultaneamente nos festivais de Veneza, Toronto e Telluride, o filme também sai catapultado para o próximo Oscar.

Inspirada no livro homônimo de não ficção de Jessica Bruder, o longa acompanha a trajetória de uma mulher que, afogada por sua situação econômica, vai morar num trailer. Interpreta-a, com sua habitual mistura de aspereza e dignidade, a atriz Frances McDormand, que se apaixonou pelo livro, comprou os direitos de adaptação e propôs a Chloé Zhao, jovem cineasta chinesa radicada nos EUA, que a dirigisse. Quando a crise de 2008 provoca o desmantelamento do povoado minerador onde ela trabalhava, essa protagonista se vê obrigada a sair pelo país fazendo bicos. Não demora a descobrir outros indivíduos marginalizados e transformados em mão de obra barata pelo ocaso da indústria e reciclados como empregados da Amazon, submetidos a contratos com duração de poucos dias ou semanas, apesar de já estarem perto da idade da aposentadoria.

Conhecida e aclamada desde um emotivo western contemporâneo que intitulou The Rider, Zhao observa, com acuidade e sensibilidade inigualáveis, a subcultura que emerge entre esse precariado, onde centenas de milhares de pessoas constituem suas próprias redes de solidariedade perante a escassez ou a ausência de ajudas públicas. Entre elas ressuscita o fantasma de Tom Joad e outros anti-heróis da Grande Depressão, num filme que brilha ao demonstrar que essa indigência não tem quase nada de romântico, por mais que assim digam os mitos sobre a fronteira. “Não está tão longe do que fizeram os pioneiros”, diz um personagem no seu agradável quintal. Igualmente interessante é outro assunto plenamente norte-americano: o conflito insolúvel entre indivíduo e comunidade. Zhao parece insinuar que a solidão dos nômades pode se tornar viciante, mas também que a autonomia nunca pode ser sinônimo de isolamento.

Nomadland confronta atores profissionais, como McDormand e David Strathairn, com viajantes reais que relatam suas vivências e aproximam a ficção do filme a um registro documental que parece dar conta da situação atual, embora Zhao tenha dito numa videoconferência com jornalistas, nesta sexta, que não quis fazer “um filme político”. “O livro é ambientado em 2011 e não tem a ver com a América de Donald Trump. Eu só conto histórias de pessoas”, afirmou. Essa resposta, atribuível à alergia que o cinema norte-americano sente pela palavra “política” —frequentemente confundida com o partidarismo ou militância—, soa ilógica. É dispensável dizer que a realidade descrita por Nomadland é política, e que a situação destas centenas de milhares de marginalizados desempenhou um papel decisivo na vitória de Trump.

Concessões

Nem tudo é perfeito neste filme, embora seja o mais sólido concorrente apresentado em Veneza. Zhao faz algumas concessões dramatúrgicas no trecho final para potencializar a identificação do espectador com sua protagonista e usa de maneira insistente (e muito contraproducente) o piano melodramático de Ludovico Einaudi, que salienta em excesso momentos de emoção que não precisavam de muleta alguma. É compreensível e até perdoável: no fundo, este é um filme de estúdio, e não custa vê-lo como o título de transição de Zhao em direção a seu glorioso futuro hollywoodiano.

Seu próximo filme será The Eternals, para o estúdio Marvel, ao qual faz uma aceno irônico num breve plano de um cinema da América profunda que exibe Os Vingadores. No papel, tem tudo para triunfar: é jovem, mulher, asiática e, sobretudo, uma cineasta brilhante. Não seria desatinado que, na edição mais feminina na história de Veneza, Zhao leve o prêmio principal com um filme que recorda a perda de raízes sociais provocada pelos descalabros econômicos, em vista do que agora se avizinha.

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