A integração dos profissionais LGBT+ para um melhor ambiente de trabalho

Objetivo é garantir que o ambiente de trabalho seja um local respeitoso e aberto para tratar do assunto

José Diaz e Lucas Queiroz Pires

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Fonte: Jota
Data original da publicação: 01/05/2018

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Diferente do que ocorre com outros grupos, a presença de profissionais LGBT+ no ambiente de trabalho normalmente só é percebida quando (e se) eles se identificam. Nem sempre há incentivo para que as pessoas sejam abertas quanto à orientação sexual ou à identidade de gênero, embora quando sejam, as consequências mostrem-se positivas para o profissional e para a empresa.

Estudos realizados pela Out on the Street indicam que os profissionais LGBT+ que não se escondem progridem e atingem posições de liderança na carreira mais rapidamente. De acordo com a Human Rights Watch, contudo, mais da metade dos profissionais LGBT+ não se sente confortável para se abrir no trabalho e 35% dos entrevistados ainda se sentem compelidos em mentir sobre sua vida pessoal. O medo de rejeição ou de ser discriminado estão entre as principais razões para o silêncio.

Não é um receio infundado: uma pesquisa da consultoria Santo Caos revelou que mais de 40% dos profissionais dizem ter sofrido discriminação por conta de sua orientação sexual ou identidade de gênero no ambiente corporativo. Além disso, 54% dos entrevistados acreditam que existe discriminação contra LGBT+ no trabalho, ainda que velada.

A discriminação gera perdas significativas para qualquer organização. Quando os profissionais LGBT+ não se sentem confortáveis ou bem acolhidos, é mais difícil para eles participarem plenamente da vida corporativa e prosperarem em suas carreiras. A produtividade aprimora significativamente quando os profissionais são encorajados a serem autênticos, expressarem suas opiniões sem ocultarem – ou mesmo comprometerem – suas relações pessoais.

É a vital correlação entre o bem-estar pessoal e o crescimento profissional. Embora haja separação entre esses dois âmbitos, há intersecção inevitável no dia a dia de qualquer trabalhador. Imagine como seria trabalhar todos os dias e esconder quem você é; ou como seria viver com o temor de falar abertamente sobre sua vida diária como outras pessoas no trabalho; não poder colocar fotos de família em sua mesa; ter que mudar pronomes quando você fala sobre o seu fim de semana; ou mesmo viver com o medo constante de ser “descoberto”.

Essas “pequenas” ações inibidoras são, em conjunto, psicologicamente extenuantes. Esses ruídos costumam interferir negativamente na produtividade, bem como na saúde mental do profissional. Com um ambiente de trabalho saudável e aberto, essa energia poderia ser naturalmente canalizada para atividades mais positivas, como maior foco nos projetos em andamento, captação de novos negócios ou desenvolvimento de habilidades de liderança.

Não à toa, a discussão sobre o tema entrou na agenda das maiores empresas do mundo. Em 2013, quase 300 empresas de setores diversos, como tecnologia, bens de consumo, alimentação e hoteleiro, escreveram à Suprema Corte dos EUA solicitando apoio à formalização da união homoafetiva, aprovada somente em 2015.

Além da responsabilidade social, as empresas também possuem responsabilidade direta na criação de um ambiente de trabalho respeitoso e inclusivo. Essa é uma prioridade, felizmente, reconhecida por várias organizações. No Brasil, o setor privado também tem se movimentado nesse sentido e um dos resultados foi a criação do Fórum de Empresas e Direitos LGBT. Fundada em 2013, a organização hoje reúne mais de 50 empresas signatárias em torno do compromisso com o respeito e a promoção aos direitos humanos LGBT+ no ambiente empresarial e na sociedade.

Diversas multinacionais, bancos e organizações têm criado, ademais, grupos institucionais que congregam profissionais LGBT+ e aliados. Esses grupos vão além do desenvolvimento de políticas institucionais de combate à discriminação – servem, sobretudo, como uma rede de relacionamento e de apoio mútuo no ambiente de trabalho.

O principal objetivo é garantir que o ambiente de trabalho seja um local respeitoso e aberto para tratar do assunto. A iniciativa privada contribui com a evolução do sistema jurídico e, por extensão, da sociedade. Isso nos põe a responsabilidade de criar um ambiente inclusivo, em prol da diversidade no mercado de trabalho brasileiro.

A necessidade de inclusão e de discussão aberta sobre profissionais LGBT+ decorre de uma premissa simples: todos os profissionais merecem trabalhar em uma organização que os acolham bem. Um ambiente de trabalho respeitoso e não discriminatório é indispensável. Esse é um dos melhores incentivos que se pode oferecer para o profissional LGBT+. Ganha o indivíduo, a empresa e, principalmente, a sociedade.

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José Diaz é sócio do Demarest Advogados e Lucas Queiroz Pires é advogado no mesmo escritório.

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