A esquerda volta a pensar além do capital

A esquerda volta a pensar além do capital
Ilustração: Nathalie Lees/The Guardian

Surpresa: nos EUA e Inglaterra, uma nova geração de economistas rejeita a ideia de adaptar-se ao sistema e formula projetos opostos à ditadura das corporações e das finanças. Quem são eles? Que ambiente político favorece esta ousadia?

Andy Beckett

Fonte: Outras Palavras
Tradução: Marianna Braghini
Data original da publicação: 02/07/2019

Por quase meio século, algo vital tem faltado na política do campo da esquerda em países ocidentais. Desde os anos 1970, a esquerda mudou o modo de pensar de muitas pessoas sobre preconceito, identidade pessoal e liberdade. Ela expôs as crueldades do capitalismo. Algumas vezes ganhou eleições e às vezes governou de forma eficaz. Mas não tem sido capaz de mudar, em essência, as relações de riqueza e o trabalho em nossas sociedades – nem de oferecer uma visão convincente sobre como isso pode ser feito. A esquerda, em resumo, não teve uma política econômica.

A direita tem. Privatização, desregulamentação, impostos menores para as empresas e e os ricos, mais poder para empregadores e acionistas, menos poder aos trabalhadores. Articuladas, estas políticas recrudesceram o capitalismo e o tornaram mais onipresente que nunca. Imensos esforços foram feitos para tornar o capitalismo inevitável e para retratar como impossível qualquer alternativa.

Neste ambiente cada vez mais hostil, a abordagem econômica da esquerda tem sido reativa. Ela resiste a estas enormes mudanças, frequentemente em vão e muitas vezes voltando-se ao passado, nostálgica. Por muitas décadas os mesmos dois analistas críticos do capitalismo, Karl Marx e John Maynard Keynes, continuaram a dominar a imaginação econômica da esquerda. Marx morreu em 1883, Keynes em 1946. A última vez que suas ideias tiveram uma influência significativa em governos ocidentais ou eleitores foi há 40 anos, durante os turbulentos dias finais da social democracia pós-guerra. Desde então, direitistas e centristas rotulam qualquer argumento em favor de superar o capitalismo – ou mesmo de freá-lo, como um desejo de fazer o mundo “retroceder aos anos 70”. Alterar nosso sistema econômico tem sido apresentado como uma fantasia — tão possível quanto viagens no tempo.

No entando, há anos o sistema começou a falhar. Em vez de uma prosperidade sustentável e compartilhada, produziu estagnação dos salários, cada vez mais trabalhadores na pobreza, desigualdade crescente, crises bancárias, convulsões de ultra-direita e iminente catástrofe climática. Até mesmo políticos da direita reconhecem, por vezes, a seriedade da crise. Na conferência do Partido Conservador britânico do ano passado, o chanceler, Philip Hammond, admitiu que “uma lacuna se abriu” no Ocidente “entre o que uma economia de mercado proporciona, em teoria …e a realidade”. Ele continua: “Muitas pessoas sentem isso…o sistema não está funcionando para elas.”

Começa a surgir a noção de que um nova forma de economia é necessária: mais justa, mais inclusiva, menos exploradora, menos destruidora da sociedade e do planeta. “Estamos num momento em que as pessoas estão muito mais abertas à ideias econômicas radicais,” admite Michael Jacobs, um ex assessor do primeiro-ministro inglês Gordon Brown. “Os eleitores revoltaram-se contra o neoliberalismo.” A crise financeira de 2008 e as antes impensáveis intervenções dos governos que a detiveram desacreditaram duas ortodoxias centrais do neoliberalismo: a de que o capitalismo não tem como fracassar e a de que o governo não deve intervir para mudar o funcionamento da economia.

Um gigantesco espaço político se abriu. Uma rede emergente de intelectuais, ativistas e políticos começou a aproveitar a oportunidade. Eles estão tentando construir um novo tipo de economia de esquerda: que se reporte às falhas da economia do século XXI, mas que também explique, de forma prática, como futuros governos de esquerda podem criar um sistema melhor.

Christine Berry, uma jovem acadêmica britânica freelancer, é uma das figuras centrais da rede. “Estamos destrinchando a economia de volta ao básico,” ela diz. “Queremos que a economia pergunte: ‘Quem é dono dos recursos? Quem tem o poder nas empresas?’ O discurso convencional econômico ofusca estas questões, para beneficiar os poderosos.”

A nova economia de esquerda quer ver a redistribuição do poder econômico, para que todos o detenham — assim como o poder político é de todos, em uma democracia saudável. A redistribuição do poder poderia incluir a participação dos trabalhadores no controle das empresas, a reorganização das economias locais para favorecer arranjos éticos (em vez de grandes corporações), ou a cooperativas tornando-se normas.

Essa “economia democrática” não é uma fantasia idealista: partes dela já estão sendo construídas. Sem esta transformação, argumentam os novos economistas, a crescente desigualdade de poder econômico irá em breve tornar a democracia impraticável. “Se queremos viver em sociedades democráticas, então precisamos…permitir que as comunidades modelem suas economias locais,” escrevem Joe Guinan e Martin O’Neill, ambos prolíficos defensores da nova economia, em artigo recente para o Institute for Public Policy Research (IPPR). “Já não é mais o suficiente ver a economia como uma espécie de domínio tecnocrático à parte, no qual os valores centrais de uma sociedade democrática, de alguma forma, não se aplicam.” Além disso, Guinan e O’Neill afirmam, tornar a economia mais democrática ajudará a revitalizar a democracia: as pessoas são menos propensas a sentir raiva ou apatia quando incluídas em decisões econômicas que afetam fundamentalmente suas vidas.

O projeto ambicioso dos novos economistas significa transformar a relação entre capitalismo e o Estado, entre trabalhadores e patrões, entre economia local e global, entre aqueles com ativos econômicos e aqueles sem. “Poder e controle econômico devem ser mais igualitários”, sustenta um relatório do ano passado da New Economics Foundation (NEF) – um thinkthank radical de Londres que age como incubadora para muitas das novas idéias do novo movimento.

No passado, governos britânicos de centro-esquerda tentaram remodelar a economia por meio de impostos — geralmente focados em rendimentos em vez de outras formas de poder econômicos — e por nacionalização, o que significava substituir a elite do setor privado por outra, designada pelo Estado. Em vez de tais intervenções tão limitadas, os novos economistas querem ver mudanças muito mais sistêmicas e permanentes. Eles querem — no mínimo — mudar como o capitalismo funciona. Mas, crucialmente, querem que esta mudança seja apenas parcialmente iniciada e supervisionada pelo Estado, e não controlada por ele. Eles visualizam uma transformação que acontece de forma quase orgânica, dirigida por trabalhadores e consumidores – uma espécie de revolução não-violenta em câmera lenta.

O resultado, alegam os novos economistas, será uma economia adequada à sociedade, em vez de, como atualmente, uma sociedade subordinada à economia. A nova economia, sugere Berry, na verdade não é economia. É “uma nova visão de mundo”.

A chegada de um novo conjunto significativo de ideias tende a gerar certas reações. O tema lota eventos. Jovens pesquisadores gravitam em sua direção. Intelectuais mais velhos, porém inquietos, estão intrigados. Novas instituições são criadas ao seu redor. Jornalistas convencionais inicialmente o descartam.

Como todos novos economistas que conheço, Michael Jacobs fala bem rápido, em frases curtas, como se houvesse muito o que explicar no tempo disponível. Um ambientalista de longa data, ele descreve a rede emergente de novos economistas como “um ecossistema”. Há um contagiante senso de tabus políticos e econômicos sendo quebrados e de um possível novo consenso nascendo.

“Há sites britânicos e norte-americanos que publicam muito de nossas coisas, como o OpenDemocracy, a Jacobin e a Novara. Há pessoas produzindo coisas enquanto trabalham para thinkthanks — ou montando novos thinkthanks. E pelas redes sociais as ideias se espalham, colaborações acontecem, muito mais rápido do que quando a economia de esquerda era sobre reuniões e panfletos,” diz Jacob. “É um pouco incestuoso, mas bastante empolgante.”

Este fermento está começando a se solidificar em um movimento. New Economy Organizers Network (Neon), uma cisão da NEF, localizada em Londres, oferece oficinas para ativistas de esquerda, para aprender como “construir apoio para uma nova economia” — por exemplo, construir narrativas efetivas a respeito na imprensa tradicional. Stir to Action, uma organização militante localizada em Dorset, publica uma “revista para a nova economia” quadrimestral e organiza sessões de orientação em cidades que tendem à esquerda, como Bristol e Oxford: Cooperativas de trabalhadores: como começar, ou Propriedade Comunitária: e se nós mesmo administrarmos?

“Há um impulso totalmente novo para ativismo relacionado a economia,” diz o editor da revista, Jonny Gordon-Farleigh, que anteriormente esteve envolvido em protestos anticapitalistas e ambientalistas. “O movimento passou do opor-se ao propor”.

O que aparece com essa movimentação é a possibilidade, pela primeira vez em décadas, de um governo do Partido Trabalhista receptivo às novas ideias econômicas de esquerda. John MaDonnell, ministro do governo paralelo [shadow cabinet] de Jeremy Corbyn parece entender isso,” diz Gordon-Farleigh, cautelosamente. “Ele tem um pouco de história compartilhada com alguns de nossos movimentos. Fez comentários interessantes…sobre introduzir uma cooperativa proprietária das ferrovias, por exemplo.”

Outros no movimento são mais otimistas. No outono [nórdico] passado, um artigo com boa repercussão de Guinan e O’Neil no jornal de esquerda Renewal, alegou que McDonnell poderia estar planejando nada menos que uma “transformação da economia britânica…um programa radical para desmantelar e afastar o poder corporativo e financeiro”, em benefício dos menos privilegiados. Guinan me disse: “John McDonnell é extremamente curioso intelectualmente. Não vi outra figura política nesse nível de senioridade cujas portas estejam tão abertas a novos pensamentos.”

James Meadway, até recentemente um dos conselheiros chave de McDonnell, está agora escrevendo um livro sobre “uma economia para os muitos”. Entre 2010 e 2015, ele trabalhou no NEF, onde seus relatórios e artigos esboçaram muitos dos argumentos dos novos economistas. Diversos integrantes do NEF me disseram que desde que McDonnell tornou-se ministro-sombra, as costumeiras relações entre think-tanks de esquerda e o Partido Trabalhista foram invertidas: em vez de tentar desesperadamente chamar a atenção do partido para suas propostas, eles estavam lutando para acompanhar o apetite do partido por elas. “Estão basicamente perguntando, ‘Vocês tem mais alguma coisa aí atrás do armário?’” diz um satisfeito, mas levemente perplexo, veterano do NEF. “Nós rabiscamos algo e damos a eles qualquer coisa que consigamos inventar, o mais rápido que pudermos.”

Em julho passado, o NEF publicou um relatório em defesa de um aumento significativo do número de cooperativas britânicas. Em uma das páginas finais, quase sem nenhum alarde, o relatório também propôs que empresas convencionais tenham que dar ações a seus funcionários, para criar o que NEF chamou de um “fundo inclusivo de posse”. Em setembro, com algumas modificações, a proposta tornou-se política do Partido Trabalhista. “Eu nunca vi nada assim, de idéia do thinkthank para uma política adotada!” diz Mathew Lawrence, um dos autores do relatório. Este mês, uma versão da política também foi adotada pelo candidato presidencial dos EUA, Bernie Sanders.

E ainda assim, fora do círculo de McDonnell e da esquerda radical, a nova economia tem passado largamente despercebida – ou tem sido casualmente ridicularizada. Os buracos negros do Brexit e a disputa de liderança do Partido Conservador são parcialmente responsáveis, sugando a atenção de tudo o mais. Mas é também a natureza radical da própria nova economia. Transformar ou acabar com o capitalismo tal como o conhecemos — os novos economistas diferem sobre qual é o objetivo — é uma idéia difícil para a maioria dos políticos e jornalistas britânicos. Depois de meio século aceitando o status quo econômico, eles associaram qualquer alternativa de esquerda ou com a desatualizada social democracia do pós-guerra ou com autoritarismo de esquerda, com a atual Venezuela ou a União Soviética.

Não importa o quão frequentemente McDonnell diga em entrevistas que ele quer ver uma economia democrática, o adjetivo que mais lhe é aplicado ainda é “Marxista”. “O novo pensamento econômico é quase como uma frequência que não pode ser ouvida,” diz Guinan.

Mas com o neoliberalismo fraquejando, e a direita desprovida de outras ideias econômicas, a nova economia da esquerda pode ter um longo futuro – ainda que o Partido Trabalhista não volte ao governo. Parodiando uma fala de Thatcher, agora há uma alternativa.

O sonho de uma economia democrática oscilou nas margens da política de esquerda por pelo menos um século. Durante os anos 1920, os teóricos socialistas britânicos GDH Cole e RH Tawney escreveram livros frescos e provocativos, argumentando que trabalhadores deveriam administrar as empresas eles próprios, em vez de se submeterem a patrões e acionistas – ou ao Estado, como teóricos mais ortodoxos do Partido Trabalhista previam. Na vida econômica, como na política, argumentou Tawney em 1921, “os homens não devem ser governados por uma autoridade que não podem controlar”.

Este empoderamento de trabalhadores foi concebido para ser o primeiro passo de uma transformação mais ampla. “O real objetivo,” escreveu Cole em 1920, deve ser “arrancar o poder econômico das classes proprietárias, pedaço por pedaço”, para finalmente “tornar possível uma distribuição equitativa da renda nacional e uma reorganização razoável da sociedade como um todo”.

No entanto, Cole era vago sobre como aconteceria a inversão desta ordem tradicional. Ele descartava uma revolução, e uma greve geral, baseando-se no fato de que trabalhadores não tinham o acesso necessário a armamentos ou recursos econômicos para derrotar seus patrões em uma luta industrial prolongada. Um governo trabalhista ousado poderia, teoricamente, aprovar a legislação necessária; mas os governos trabalhistas dos anos 1920  e 1930 eram tímidos e não duraram muito.

Quando o Partido Trabalhista adquiriu a confiança e o tempo para reconfigurar a economia, durante os governos dos primeiros-ministros Clemente Attlee, na década de 1940 e de Harold Wilson, na década de 60, o partido escolheu fazê-lo por meio dos planos e burocracias de Whitehall [N.T.: centro administrativo do Reino Unido], tais como o Departamento de Assuntos Econômicos (DEA, na sigla em inglês) de Wilson, em vez de por meio da democratização da economia. Os resultados foram mistos: o DEA durou apenas cinco anos.

Somente nos anos 1970 um poderoso político trabalhista interessou-se em democratizar a economia. Tony Benn foi bastante atento ao aumento do individualismo durante a década. “Mais pessoas querem fazer mais para elas mesmas,” escreveu em 1970. “A tecnologia libera forças que permitem e encorajam descentralização… Deve ser um objetivo prioritário dos socialistas trabalhar pela redistribuição de poder.”

Em 1974, Wilson tornou Benn ministro da Indústria. A economia estava em dificuldades. Benn supervisionava e subsidiava cooperativas administradas por trabalhadores em três grandes negócios que estavam padecendo: o Scottish Daily News, um jornal de Glasgow, a Kirkby Manufacturing and Engineering, um produtor de radiadores em Liverpool e a Meriden, produtora de motocicletas em West Midlands. Os desafios que estas cooperativas encaravam — falta de investimento prévio e fortes rivais domésticos e estrangeiros — eram agravados por antipáticos funcionários, economicamente conservadores, no departamento de Benn. Um relatório imparcial de 1981 sobre as cooperativas, feito pela revista de esquerda New Internationalist, descreveu-as como condenadas desde o início – elas eram “gigantes incapazes”.

A cooperativa Scottish Daily News durou cinco meses. A cooperativa Kirby foi melhor. Eric Heffer, um ministro que trabalhou para Benn, encontrou lá administradores de centrais sindicais “transformados por suas experiências” de ajudar a administrar os negócios. Eles se tornaram “administradores-trabalhadores reais”. A cooperativa resistiu à recessão dos anos 70. Mas logo após a eleição de 1979, o governo de Margaret Thatcher terminou o experimento ao cancelar os subsídios da Kirby. A Meriden sobreviveu à mudança de governo e mais outra recessão no início dos anos 1980. Mas declarou falência em 1983.

O próprio Benn durou apenas um ano no ministério da Indústria, antes de ser removido por Wilson, que nunca aceitou completamente seu radicalismo. Benn nunca mais esteve à frente de algum posto econômico central. A saga “solapou a opção por cooperativas nos círculos de formulação de políticas do Partido Trabalhista nas décadas seguintes”, diz Gordon-Farleigh.

Da demissão de Benn em 1975 à eleição de Jeremy Corbyn como líder trabalhista, 40 anos depois, a hierarquia do partido aceitou amplamente que a economia deveria ser baseada em lucro, competição, e administração de cima para-baixo. As tentativas de Benn e outros na esquerda britânica, durante os anos 70, de estabelecer o que eles por vezes chamavam, provocativamente, de “controle dos trabalhadores” foram largamente esquecidas, ou lembradas como apenas mais uma das utopias fracassadas de uma década ridicularizada. A chance de uma economia democrática parecia ter passado.

Ainda assim, durante os anos magros que se seguiram para a esquerda britânica, outro experimento em democratização da economia começou – do outro lado do Atlântico, em um país menos associado com revoltas contra o capitalismo. Foi mais local, mas também mais profundo do que o apoio de Benn a cooperativas vulneráveis, e buscava mobilizar o poder dos consumidores, em vez dos produtores.

Gar Alperovitz é um economista e ativista norte-americano de 83 anos. Desde os anos 1960, tem persistentemente promovido inovações econômicas que colocam objetivos sociais antes de comerciais. Frequentemente, tem sido uma figura periférica, mas atraiu bastante atenção intermitentemente. Em 1983, apareceu com destaque em uma matéria de capa da Time sobre o futuro da economia. Em 2000, na Universidade de Maryland, co-fundou o Democracy Collaborative, um centro para pesquisa sobre como recuperar a vida política e econômica de regiões em declínio nos EUA – que por sua vez também se expandiu gradualmente em um corpo ativista.

“Cidades norte-americanas com problemas estão em um estágio mais avançado de declínio de que suas equivalentes britânicas,” diz Guinan, que trabalhou no Democracy Collaborative por uma década. “Mas o governo norte-americano local também tem maiores poderes. Por isso, é possível criar novos modelos radicais da base para cima.”

Em 2008, o  Democracy Collaborative começou a trabalhar em Cleveland, uma das grandes cidades mais pobres dos EUA, que tem perdido empregos e moradores há décadas. Os ativistas seguiram uma estratégia de Alperovitz chamada “construção de riqueza comunitária”. Ela busca acabar com a dependência destas economias locais em dificuldade, de relações com corporações distantes, extratoras de riqueza – como as redes de varejistas. Em vez disso, tenta articular estas economias ao redor de negócios locais, mais socialmente conscientes.

Em Cleveland, o Democracy Collaborative ajudou a montar uma companhia de energia solar, uma lavanderia industrial, uma horta hidropônica no centro da cidade. Os três empreendimentos eram de propriedade de seus funcionários, e uma parte de seus lucros ia para uma espécie de companhia central, encarregada de estabelecer mais cooperativas na cidade. Os três empreendimentos tiveram sucesso, por enquanto. O objetivo do projeto foi resumido em termos francos, quase populistas, por um dos co-fundadores do Democracy Collaborative, Ted Howard, em 2017: “Parem com o vazamento de dinheiro para fora de nossa comunidade.” Mas a “construção de riqueza comunitária” também tem um propósito mais sutil: é uma demonstração concreta de que decisões econômicas podem ser baseadas em mais do que os limitados critérios do neoliberalismo.

Howard estava falando em uma conferência de nova economia na Inglaterra, que foi organizada por McDonnell. Os dois têm uma relação próxima. Ano passado, McDonnell introduziu Howard em outro evento do Partido Trabalhista, em Preston: “Nós o trazemos com alguma regularidade agora, para explicar o trabalho que fez.”

McDonnell interessa-se há muito tempo em descentralizar e democratizar a economia. Ele frequentemente cita Tawney, Cole e Benn em palestras. Durante os anos 80, era o representante líder e efetivamente o chanceler do Conselho da Grande Londres [GLC, na sigla em inglês], que buscava experimentos ao estilo de Benn, de cooperativas com apoio estatal, com resultados similarmente mistos, até que foi abolido por Thatcher em 1986.

Contrária à imagem que o retratam, como um monstro estatista, McDonnell acredita que há limites em até que ponto a esquerda consegue aumentar impostos e gastos públicos. Em sua perspectiva, muitos eleitores não estão dispostos, ou estão incapazes, de pagar mais impostos – especialmente quando os padrões de vida estão apertados. Ele também acredita que governos centrais perderam sua autoridade. São vistos simultaneamente como muito fracos, com pouco dinheiro devido à austeridade; e também como muito fortes, muito intrusivos e impositivos em relação à seus cidadãos. Em vez de depender do Estado para criar uma sociedade melhor, um dos aliados próximos de McDonnell, argumenta que governos de esquerda, em nível nacional ou municipal “têm de ousar mudar o funcionamento da economia”.

Nos anos recentes, com o estímulo de McDonnell e Jeremy Corbyn, e a orientação do Democracy Collaborative, muitos dos princípios do “modelo de Cleveland” foram adotados pelo Conselho administrado pelo Partido Trabalhista na pequena (e anteriormente industrial) cidade de Preston, em Lancashire. A regeneração tem sido promovida como o prenúncio da Grã-Bretanha sob um governo Corbyn.

A cidade de Preston, um centro urbano que declinou por décadas, agora tem um mercado renovado e movimentado, novos estúdios artísticos em antigos escritórios do Conselho, e café e cerveja artesanal sendo vendidas em containers marítimos modificados. Todos estes empreendimentos tem sido facilitados pelo Conselho. De forma menos visível, mas provavelmente mais importante, outras instituições públicas – um hospital, uma universidade, uma delegacia policial – foram persuadidas pelo Conselho a buscar bens e serviços locais sempre que possível, tornando-se o que o Democracy Collaborative chama de “instituições âncora”. Elas agora gastam quase quatro vezes mais de seus orçamentos em Preston do que faziam em 2013.

O líder do Conselho é Matthew Brown, um homem intenso, angular, de 46 anos, que foi parcialmente estimulado a entrar na política ao ver Benn na televisão quando era adolescente. “O que estamos fazendo em Preston é bom senso, mas é também ideológico,” me disse Brown, quando nos conhecemos em seu diminuto escritório. “Nós estamos vivendo uma crise sistêmica do capitalismo e temos que criar alternativas.” Ao fazê-lo – especialmente num momento em que Conselhos locais estão sendo altamente enfraquecidos pelos cortes governamentais – Preston está, de forma pequena mas visível, minando a autoridade do neoliberalismo, que depende do dogma segundo o qual outras opções econômicas não são possíveis.

O Conselho, continuou Brown orgulhosamente, estava “apoiando pequenos negócios locais em vez de grandes capitalistas”. Ele estava usando isso como alavanca para fazer as empresas se comportarem de forma mais ética: pagamento de salário mínimo, recrutamento de equipes mais diversas. E estava buscando tornar a cidade um lugar onde cooperativas são o mainstream e não nichos: “Minha intenção é levá-las a dirigir 30% ou 40% de nossa economia.

Perguntei se ele tinha dúvidas sobre a possibilidade de uma cidade com menos de 150 mil habitantes servir de modelo para reformular a toda a economia britânica – e por consequência, outras economias. “Não,” ele disse. “Eu sou bem determinado.”

Sente-se uma confiança nos novos economistas, o que surpreende depois de todas as derrotas da esquerda durante os anos 80 e 90. Mas com o capitalismo menos potente e popular do que antes, os novos economistas acreditam que agora estão engajados no que o teórico político Antonio Gramsci — uma grande referência para eles e McDonnell — chamou de “guerra de posição”. Trata-se da acumulação estável de alianças, ideias e credibilidade pública. Berry descreveu este processo como uma “transição” que pode levar a uma economia diferente. McDonnell me disse em 2017 que ele queria “uma transformação progressiva de nosso sistema econômico”.

Algumas horas depois de encontrar Brown em Preston, falei com McDonnell novamente sobre a nova vitalidade intelectual da esquerda. “Nós estamos começando a reconstruir o que tínhamos com Tony Benn nos anos 70,” ele disse. “Um conjunto de grupos de pesquisa — NEF e Class[outro thinkthank de esquerda em economia] – tem sido revitalizados. Michael Jacobs está cheio de idéias. Nós estamos argumentando efetivamente por uma economia mais democrática. Dobrar o número de cooperativas no Reino Unido” – algo que a NEF defendeu ano passado – “é relativamente tímido. Nós queremos ir além.”

Ele não deu mais detalhes. Mas a política do “fundo inclusivo de posse” adotada pelo Partido Trabalhista mostra o potencial das idéias da nova economia. A intenção dos fundos é que sejam cavalos de Tróia. Ou seja, inserirna estrutura de propriedade de uma companhia um grupo de acionistas – seus funcionários – que tendem a favorecer maiores salários e investimentos de longo-prazo. “Os fundos são para fazer pender a balança rumo a um tipo diferente de cultura corporativa, diz Lawrence.” Ou, como afirma a escritora e ativista Hilary Wainwright, uma das intelectuais mais perspicazes da esquerda do Partido Trabalhista desde os anos 70: “Transformações radicais, quando desestabilizam o status quo do jeito certo, cria outras oportunidades para mudança.”

Mas tornar a nova economia em política nacional será difícil, mesmo que o Partido Trabalhista conquiste poder. Último verão, a diretora do NEF, Miatta Fahnbulleh, foi convidada para uma conversa com servidores do Tesouro Civil, sobre a nova economia. “Quando cheguei lá,” ela me contou, “eu rapidamente me dei conta que, para o Tesouro, a nova economia significa apenas tecnologia. Quando eu comecei a falar, em vez disso, sobre como a economia poderia operar diferente, eles compraram minha premissa de que o status quo tem problemas. Eles são o Tesouro, têm os dados. Acharam que a nova economia era interessante, mas somente como uma espécie de plataforma de debate.”

Antes da NEF, Fahnbulleh trabalhou para o gabinete do governo e para a estratégia institucional do governo. Ela prevê que haverá resistência em à nova economia: “Whitehall odeia grandes mudanças — todas as vezes.” Jacobs, que tem uma experiência mais longa de governo, é levemente mais otimista. “Alguns jovens do Tesouro provavelmente irão ficar bem empolgados com uma nova abordagem econômica. Alguns dos mais velhos vão achar que está tudo errado. E outros irão apenas implementar qualquer coisa que o governo pedir.”

E há o establishment corporativo. Desde Margareth Thatcher, ele se habituou com governos dóceis, com ser capaz de se sobrepor a outros grupos de interesse e com os lucro e preços das ações superando outras medidas de valor econômico ou social de uma empresa. A intenção dos novos economistas em encerrar este desequilíbrio não foi bem aceita. “A Confederação da Indústria Britânica (CBI, na sigla em inglês) realmente odeia propriedade inclusiva,” diz um aliado de McDonnell. “Você consegue sentir os arrepios sempre que suscitamos o assunto.”

Quando indaquei à CBI suas perspectivas sobre a nova economia, houve um silêncio por uma semana. Então, depois que os persegui, uma sucinta declaração: “O Partido Trabalhista parece estar determinado em impor regras que demonstram uma deliberada falta de entendimento de negócios.”

Os novos economistas dizem não estar intimidados. “Nós precisamos ser absolutamente francos sobre isso,” diz Guinan. “Uma economia democrática e outra exploradora são fundamentalmente incompatíveis. Devemos montar um ataque direto, de esquerda populista, a estes interesses corporativos. Devemos dizer a eles: ‘Que vão para Singapura!’ A esquerda não deve temer um pouco de destruição criadora”, ele diz tomando emprestada, de modo atrevido, uma frase geralmente usada pelos defensores do “livre” mercado. Jacob concorda: “Que as corporações exploradoras vão à falência.”

Isso pode parecer uma imprudente fantasia de esquerda. Mas os novos economistas argumentam de forma convincente que transformações altamente disruptivas ocorrerão na economia britânica, de qualquer forma – devido ao Brexit, à automação e à crise climática. “O Brexit por si só irá requerer um Estado bem intervencionista” para ajudar a economia a se adaptar, diz Lawrence. “Ele irá tornar muito mais difícil para um servidor público dizer, ‘Você simplesmente não pode fazer isso.’”

Mas o que os novos economistas querem que venha depois do capitalismo neoliberal? Em Preston, depois que Brown me falou missionariamente acerca das virtudes de “negócios locais” e “empregos locais”, perguntei se seu conselho não estava, na verdade, salvando o capitalismo na cidade – ao torná-lo mais socialmente sensível – em vez de suplantá-lo. Pela primeira vez, ele pausou. “Nós temos que ser pragmáticos,” ele disse. “Ainda estamos em um ambiente de “livre” mercado. E de qualquer forma eu não vejo negócios locais como grandes capitalistas. A vasta maioria possui apenas um ou dois empregados. Quase não há ninguém para explorar. Não há acionistas estão envolvidos.” Nem todo mundo na esquerda veria pequenos empreendimentos — frequentemente grandes apoiadores de partidos de direita e de políticas de “austeridade” sociais e econômicas — em termos tão benévolos.

Posteriormente, perguntei também a McDonnell se sua abordagem não corria o risco de salvar – em vez de substituir – o capitalismo. Ele sorriu e acionou seu modo proverbial, que adota quando fala de questões complexas. “Quem incorpora quem…” ele disse. “Esse é o debate!” Então, seu sorriso ficou mais malicioso. Um governo Corbyn, ele disse, iria “receber” os negócios “em nosso terno abraço”.

O aliado de McDonnell com quem falei disse: sempre que a questão da trajetória de longo prazo da economia surgia, nas discussões do Partido Trabalhista, “nós evitamos esta conversa. Não há consenso no partido.” E adicionou: “Pessoalmente, eu ficaria bem feliz se a Grã-Bretanha terminasse como a Dinamarca.”

McDonnell frequentemente cita a Alemanha como outro país onde o capitalismo é mais benigno. Wainwright, que conhece McDonnell há décadas, tem uma previsão útil e flexível sobre o que deve acontecer com a cultura econômica britânica, se ele se tornar ministro. “Em rota rumo a uma sociedade socialista,” ela diz, “pode haver momentos em que um capitalismo diferente emerge”. Em outras palavras, um sistema menos selvagem.

Ainda assim, o problema da esquerda em se contentar com “um capitalismo diferente” (não importa se temporário) é que isso pode possibilitar que o capitalismo se reagrupe e então retome seu progresso darwiniano. Indiscutivelmente, isso é exatamente o que aconteceu na Grã-Bretanha durante o último século. Depois da recessão econômica politicamente explosiva nos anos 1930 – a precursora da crise atual do capitalismo – durante os anos pós-guerra muitas lideranças corporativas pareceram aceitar a necessidade de uma economia mais igualitária, e desenvolveram relações próximas com políticos trabalhistas. Mas assim que a economia e a sociedade se estabilizaram, e direitistas como Thatcher começaram a advogar sedutoramente por um retorno ao capitalismo tradicional, os empresários mudaram de lado.

Outra dificuldade dos novos economistas e de seus aliados políticos é persuadir eleitores – criados sob a ideia de que lucro e crescimento são os únicos critérios econômicos que importam – de que outros valores devem importar mais, daqui pra frente. Mesmo salvar o meio ambiente é difícil de vender. “O efeito do crescimento econômico no planeta não é uma questão discutida suficientemente pela esquerda,” admite Berry. “Sobre decrescimento” – o atual termo ecológico para abandonar o crescimento como um objetivo econômico – “o Partido Trabalhista não quer chegar perto.” concorda o aliado de McDonnell. “Decrescimento,” ele disse, “é uma terrível rotulação.” Guinan diz que o problema não é apenas de apresentação: “ainda não foi inventada uma política de decrescimento que convença o público.”

Em vez disso, o Partido Trabalhista recentemente começou a construir uma versão do Green New Deal: um sedutor esquema, mas ainda muito teórico, defendido mais constantemente por esquerdistas e ambientalistas na Grã-Bretanha e nos EUA na última década. Ele tem o objetivo de abordar a emergência climática e alguns dos problemas da economia de forma simultânea, por meio de um grande apoio governamental ao uso de tecnologias verdes e aos trabalhos qualificados e bem remunerados necessários. Em uma palestra esta semana, McDonnell disse que este precisaria ser o maior projeto em tempos de paz em muitas décadas. Em abril, a ministra paralela de Negócios, Rebecca Long-Bailey, uma parceira de McDonnell, escreveu um artigo no The Guardian, defendendo uma “revolução ecológica industrial”, incluindo “turbinas em águas profundas no Mar do Norte”, que “poderiam fornecer quatro vezes a demanda de energia de toda a Europa. Era uma visão bem empolgante, mas as turbinas eram a única nova tecnologia potencial que o artigo mencionava.

Outra grande questão que os novos economistas frequentemente contornam é se muitos dos trabalhadores atuais de fato querem ter mais voz em seus espaços de trabalho. Quando a “democracia industrial” foi a última idéia popular à esquerda, nos anos 70, o trabalho era indiscutivelmente mais satisfatório e central na vida das pessoas. Empregos em escritórios estavam substituindo os empregos nas fábricas, o trabalho era um forte motor de mobilidade social, e a associação a sindicatos poderosos acostumara a maioria dos trabalhadores a ser consultados, a ter alguma agência em suas vidas profissionais. Mas em 2019, experiências de empoderamento no trabalho são menos comuns. Para cada vez mais pessoas, não importa quão qualificadas, emprego é de curto-prazo, de baixo status, ingrato – algo que mal faz parte de sua identidade.

Gordon-Farleigh passou anos tentando estimular as pessoas a formar cooperativas – e nem sempre teve sucesso. “O capitalismo contemporâneo produziu uma força de trabalho passiva,” ele diz. “Muitas pessoas até gostam de se sentir um pouco alienadas pelo capitalismo – e não realmente entender como ele funciona. Eles precisam ser requalificados, politicamente. Temos que olhar quais poderes econômicos eles de fato querem.”

Em abril, depois de esperar uma pausa no aparentemente infinito inverno de polêmicas sobre o Brexit, Mathew Lawrence lançou um think-thank da nova economia, Common Wealth, que busca delinear os eixos do movimento, em conjunto com um evento vespertino em Londres. Após um filme animador, mas levemente escorregadio sobre a missão do Common Wealth, ser exibido em uma grande tela – similar em tom e conteúdo a um recente canal político do Partido Trabalhista chamado Our Town – Lawrence foi introduzido para a audiência por Guinan. Na palestra que se seguiu, Lawrence avançou tanto que sua voz tornou-se um resmungo, rápido demais para qualquer um que não esteja familiarizado com a nova economia acompanhar. Durante este momento formal da tarde, o Common Wealth correu o risco de parecer um projeto para quem já é de dentro — apenas mais um think-tank londrino, com o ex líder do Trabalhista, Ed Miliband, na diretoria.

Mas o restante do lançamento pareceu diferente. O local alugado era em East End, longe do usual cinturão de think-tanks em Manchester. Estava lotado, o sotaque da região se ouvia alto. Quase todo mundo tinha entre 20 e 30 anos, muitos com sapatos desgastados e cortes de cabelos austeros e modernos – a agora familiar visão de millennials britânicos reunindo-se para discutir mudar o mundo. Duas horas depois do início do evento, as pessoas ainda chegavam e quase ninguém havia ido embora. Quando eu fui, pouco antes das 23h, as luzes nos prédios corporativos de Londres ainda estavam acesas. Mas ao me afastar da sala barulhenta, especialmente depois de uma garrafa de cerveja artesanal da Common Wealth, feita para a ocasião, foi possível acreditar que os grandes dias dos banqueiros podem estar contados, e que a nova economia irá nos dizer como.

Andy Beckett é um jornalista e historiador britânico. Ele escreve para o The Guardian, o London Review of Books e a revista The New York Times.

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