A escola estatal capitalista e a educação do trabalhador

Maria José Ferreira Ruiz

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FonteTrabalho & Educação, Belo Horizonte, v. 23, n. 1, p. 119-137, jan./abr. 2014.

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ResumoA escola é um produto social que tem sua história atrelada ao desenvolvimento do mundo da produção. Partindo desse pressuposto, o objetivo deste texto é o de apresentar o processo de construção sócio-histórico da escola estatal capitalista e a relação entre educação e trabalho. Para tanto, revisitamos alguns teóricos clássicos da área da educação e da economia política, dentre os quais Smith, Marx, Gramsci, Althusser, Fernández Enguita, Mészáros e outros. Explanamos sobre como a escola estatal contribui, historicamente, para preparar o trabalhador para que se ajuste à forma de trabalho do sistema econômico e para desenvolver o nacionalismo e a socialização das massas para o trabalho assalariado. Encerramos apontando alguns elementos sobre a escola progressista, seus idealismos, utopias e potencialidades para contribuir com a emancipação social dos sujeitos na sociedade de classes.

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Sumário: Introdução | A relação histórica entre trabalho e educação | Educação do trabalhador assalariado, nacionalismo e massificação da escola | Escola capitalista: necessária à produção e tempo roubado da produção | A escola e a socialização das massas para o trabalho assalariado | Escola progressista: idealismo, utopias e possibilidades | Conclusão | Referências

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Introdução

A escola, consistindo em uma produção material da sociedade, tem sua história atrelada ao desenvolvimento do mundo da produção. Portanto, a história da escola e a história do mundo do trabalho são indissociáveis. O texto é fruto de pesquisa de maior amplitude, na qual se investiga a participação social dos movimentos populares de bairros nas escolas públicas de periferia urbana. Entendemos que, antes de adentrarmos na especificidade da pesquisa citada, seria necessário discutir sobre a gênese e o papel da escola na sociedade de classes. É o que nos propomos aqui.

As terminologias escola e educação, muitas vezes, são citadas como se sinônimos fossem. No entanto, é importante destacar que educação, de forma ampla, é uma prática social que ocorre nas relações que os sujeitos estabelecem entre si na organização social e, portanto, não apenas na escola. Na relação social, os sujeitos produzem cultura e transmitem cultura às novas gerações. Assim, no sentido lato, a educação é “a atualização histórica do homem e condição imprescindível, embora não suficiente, para que ele, pela apropriação do saber produzido historicamente, construa sua própria humanidade histórico-social” (PARO, 2001, p. 34).

A educação de forma restrita, essa sim, acontece na escola, instituição formal encarregada pela educação escolarizada. Essa instituição serve a determinado sistema produtivo e é vista como caminho para a produção e reprodução de culturas, mentalidades e força de trabalho.

Sendo assim, educação e escolarização não podem ser analisadas isoladas do contexto socioeconômico mais global. Porquanto, temos que considerar educação e escola situadas, historicamente, em um modo de produção que difunde uma determinada concepção de mundo que está a serviço de uma determinada hegemonia. A ideia que defendemos neste texto é de que, na sociedade capitalista, marcada pelo antagonismo das classes sociais, a escola estatal, que geralmente chamamos de escola pública, tem refletido em seu cotidiano este antagonismo e todas as contradições inerentes a esta sociedade.

Tendo isso em vista, a problemática que norteia este texto centra-se na possibilidade de a escola estatal estar a serviço da emancipação social dos trabalhadores, se isso seria utopia e sobre qual base teórica se sustentaria essa concepção. Diante dessa problemática, neste texto, temos os objetivos de apresentar o processo de construção sócio-histórico da escola estatal capitalista, discutir a relação entre educação e trabalho e de arrazoar sobre as possibilidades e as potencialidades de a escola estatal ser um espaço de emancipação social para o trabalhador, ou não.

Partindo dessa problemática e desses objetivos, apresentamos uma síntese sócio-histórica da escola capitalista de forma geral, haja vista que nem haveria por que descrever aqui a especificidade de cada momento histórico e os detalhes e diferenças que, com certeza, existem na constituição dos sistemas escolares nos diferentes estados brasileiros e localidades. Há questões que são universais, se analisarmos o desenvolvimento da instituição escolar em paralelo aos modos de produção (escravista, feudal e capitalista). Este foi o caminho que escolhemos, mesmo sabendo que as generalizações são passíveis de muitas falhas, justamente por não considerar especificidades relevantes.

Desta feita, o delineamento feito logo a seguir é bastante econômico e apenas indica alguns argumentos sobre o tema em tela. Por reconhecer a impossibilidade de discutir todas as suas implicações no curto espaço deste texto, levantamos apenas alguns pontos que nos parecem relevantes. Sendo assim, organizamos o texto em cinco subitens que se complementam, a saber: a relação histórica entre trabalho e educação; educação do trabalhador assalariado, nacionalismo e massificação da escola; escola capitalista: necessária à produção e tempo roubado da produção; a escola e a socialização das massas para o trabalho assalariado; e, finalizando, escola progressista: idealismo, utopias e possibilidades. Vamos ao primeiro deles.

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Maria José Ferreira Ruiz é Doutora em Educação pela Universidade Estadual Paulista “Julio de Mesquita Filho” (UNESP/Marília); Mestre em Educação pela Universidade Estadual de Londrina (UEL). Docente da Área de Política e Gestão da Educação da UEL.

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