A economia brasileira não ganha tração

A economia brasileira não ganha tração
Fotografia: Freeimages

Flavio Fligenspan

Fonte: Sul21
Data original da publicação: 25/03/2019

No final do mês de fevereiro o IBGE revelou os números finais do PIB brasileiro para o ano de 2018, com crescimento de 1,1%. Mais uma vez registrou-se frustração com uma taxa de crescimento muito baixa e bem menor do que os 3% que se projetavam no início do ano. A taxa de 1,1% repete exatamente o crescimento de 2017, representando uma recuperação frágil e apenas parcial da forte queda do PIB nos anos recessivos de 2015-2016. Com efeito, se no biênio recessivo acumulamos perda de 7,7% de PIB, o biênio seguinte proporcionou um avanço de apenas 2,2%, fazendo com que neste momento do tempo estejamos com um nível de produção 4,7% menor que o de 2014. Não é preciso dizer mais do que isto para se ter a noção exata do tamanho da desgraça em que estamos metidos.

É inegável o efeito negativo da greve dos transportadores entre maio e junho de 2018 sobre a frustração da expansão, até porque foram nítidas as consequências de tal movimento nos meses seguintes, tanto sobre a produção industrial como sobre as vendas do Comércio varejista. A paralisação acabou por afetar o abastecimento de diversas cadeias produtivas que custaram a ter sua situação normalizada. Assim, uma recuperação que vinha ocorrendo já com pouco fôlego, tornou-se ainda mais fraca.

É importante observar que o Consumo das famílias e, principalmente, as Exportações perderam o fôlego que exibiam na primeira metade do ano, o que colaborou para o resultado geral ruim. Pela ótica da oferta, vale registrar que Serviços foi o setor com melhor desempenho (1,3%) – ainda assim apenas 0,2 ponto percentual acima da média –, seguido da Indústria (0,6%) e da Agropecuária (0,1%), esta com boa performance, que só não se refletiu em taxa mais alta porque a safra de 2017 já havia sido muito boa, constituindo uma elevada base de comparação.

O desempenho da Indústria foi influenciado negativamente pela Construção civil, que ainda exibiu taxa negativa (-2,5%), apesar de bem menor em módulo desde seu pior momento, na passagem de 2016 para 2017, quando alcançou a faixa dos -10%. Para ter-se uma ideia sintética da débâcle da Construção civil brasileira, basta dizer que seu nível de produção em 2018 foi 26% menor que o de 2014. Para 2019 há a expectativa de retomada de taxas positivas, mesmo que pequenas, seja pela construção residencial, seja pela construção pesada, ligada à tentativa do novo governo de por em marcha vários projetos aprovados na área de infraestrutura, sabidamente grandes geradores de emprego e com amplo efeito multiplicador sobre os demais setores de atividade.

Na virada de ano, de 2018 para 2019, tudo indicava que este seria o momento de uma retomada da atividade com mais fôlego. Afinal, a base de comparação é muito pequena e o novo governo tem uma situação econômica doméstica favorável ao crescimento. Juros num patamar baixo para o histórico nacional, contas externas em ordem, inflação baixa e controlada e folga de recursos produtivos: alta ociosidade das empresas e muitos trabalhadores em busca de emprego, mesmo que em condições bem piores a partir da desregulamentação trazida por Temer.

Isto quer dizer, seria possível crescer sem causar pressões sobre os preços, sobre o mercado de trabalho e sobre o Balanço de Pagamentos. Bastaria oferecer os incentivos certos para a máquina “começar a rodar”, ou seja, para a economia ganhar tração, mas, ao final do primeiro trimestre do ano, já não é bem isto que se projeta.

Pelo contrário, basta verificar como regrediram rapidamente as expectativas do mercado financeiro para 2019, segundo o Relatório Focus do Banco Central. Os primeiros resultados deste ano apontavam para um crescimento do PIB de 2,5%, contudo, já no final de março, projeta-se meio ponto a menos (2%). Não há dúvida de que as trapalhadas políticas do Governo Bolsonaro; a falta de habilidade, de coordenação das várias áreas e de planejamento; e o fato de não conseguir a articulação de um efetivo apoio no Congresso colaboram decisivamente para a frustração das expectativas. Há, nitidamente, uma falta de sincronia entre planos amplos e ousados de mudança do arcabouço institucional brasileiro e uma estratégia política muito frágil para alcançar tais objetivos.

O Índice de Atividade do Banco Central (IBC-Br), um indicador sintético que é publicado à frente do PIB, já tem dados para janeiro de 2019 e mostra a dificuldade da economia brasileira de ganhar tração no seu processo de retomada pós crise recessiva. Observa-se que, nos piores momentos, na metade do ano de 2016, o Índice esteve pouco abaixo de -5% e desde lá ocorreu um caminho de recuperação, inclusive passando para o terreno positivo no final de 2017. No entanto, desde o início de 2018 a retomada perdeu o fôlego, não conseguindo produzir taxas cada vez maiores; em vez disso chegou mesmo a apresentar suaves quedas nos últimos meses. Com a falta de rumo do Governo Bolsonaro, as expectativas de sairmos do buraco que a recessão de 2015-2016 cavou ficam mais uma vez adiadas.

Flavio Fligenspan é professor do Departamento de Economia e Relações Internacionais, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

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