A desigualdade e a falsa “barreira sanitária”

Fotografia: Luiza Castro/Sul21

Diante da tragédia humanitária que estamos enfrentando, estaria a sociedade brasileira disposta a defender um novo projeto de crescimento com inclusão ou manteria a marca histórica da exclusão?

Flavio Fligenspan

Fonte: Sul21
Data original da publicação: 13/07/2020

A sociedade brasileira é constitutivamente desigual. Diferentemente do que muitos esperavam, a pandemia não diminuiu esta marca e seus efeitos negativos, pelo menos até agora. Contrariando os otimistas, não vejo como a pandemia faria este serviço; bem pelo contrário, nas horas de aperto da vida em sociedades que se caracterizam pela combinação entre desigualdade e exclusão é que mais aparecem o individualismo e a falta de empatia e de solidariedade. Há exemplos pontuais de movimentos em contrário, mas não parece que tenham muito peso.

A desigualdade joga um papel importante na economia brasileira pelo lado da oferta, pois é ela que proporciona produtos e serviços baratos, visto que a remuneração da mão de obra é historicamente baixa. A classe média, especialmente suas camadas mais altas do ponto de vista da renda, é usuária deste “privilégio” de contar com serviços baratos executados por abundante mão de obra mal treinada, de baixa escolaridade/produtividade e de baixa remuneração. Há uma longa tradição que sustenta relações de exploração na prestação de serviços, desde antes destas relações serem mediadas por remuneração pecuniária, como no caso das escravas que faziam os serviços de casa e chegavam mesmo a amamentar os filhos das senhoras. A versão mais atual, ou nem tanto, é a da ocupação de empregada doméstica. De forma não tão direta, podemos relacionar os serviços baratos de motoristas, motoboys, garçons, cozinheiros, cabeleireiros, manicures, costureiras e tantos outros.

As famílias privilegiadas pela má distribuição de renda no Brasil, que usam os serviços oferecidos por estes profissionais de diversas áreas, nunca se preocuparam seriamente com um tema óbvio: onde moram as pessoas que prestam os serviços; que transporte utilizam; de que forma são atendidas pelos serviços públicos, como saneamento, saúde e educação; e, principalmente, que padrão de higiene têm nos seus hábitos privados e na sua atuação profissional. Estaria o garçom ou o cozinheiro do restaurante tradicional trabalhando com alguma doença infecciosa? Aparentemente, desde que seus salários fossem suficientemente baixos para formar um preço conveniente do serviço prestado, as outras perguntas poderiam ser afastadas.

Com a pandemia e o risco explícito da contaminação, tudo mudou. As mesmas famílias que antes não se faziam as perguntas delicadas, agora ativam seu sentimento de exclusão e tentam se afastar dos serviços dos restaurantes, dos hotéis e de limpeza doméstica. Irônico que a variável preço perdeu status na ordem de preferência dessas famílias. Ganhou importância o padrão de higiene pessoal e familiar dos prestadores de serviços, o saneamento do bairro onde moram e o tipo de transporte que utilizam. O medo do contágio transformou as relações sociais e econômicas, mas não em favor da solidariedade, e sim para se proteger do outro, em especial do outro considerado inferior na escala social. E há até estatística para mostrar que este medo tem fundamento, não se trata de preconceito; basta observar a incidência de Covid nos diferentes bairros das cidades.

Assim que, por vias tortas, passamos a entender que vivemos todos no mesmo ambiente, a cidade, e respiramos o mesmo ar e corremos o risco – não o mesmo – de nos contaminar. De alguma forma, o que a renda sempre separou, o vírus tornou mais próximo, explicitando que uma pretensa “barreira imunizatória” nunca foi nem real nem possível. Se deste entendimento vão resultar mudanças de posicionamento político das classes média e alta no Brasil e de como elas vão se colocar diante da qualidade dos serviços públicos e da histórica desigualdade de renda, é algo que devemos esperar para ver. Talvez o surgimento de uma vacina eficaz ponha tudo de volta “no seu lugar”.

Se este episódio oferecer uma nova forma de encarar a vida em sociedade, que não mais acredite numa falsa separação sanitária, esta nova forma bem poderia se ampliar para as relações econômicas. As camadas de renda mais alta poderiam estender a ideia da impossibilidade da separação estrita para defenderem outro tipo de “integração”, via mudança na distribuição de renda. Rendimentos maiores na base da pirâmide favorecem o consumo, o emprego e o crescimento, que, por fim, beneficia a todos.

Até hoje, as classes média e alta não entenderam que o processo de redistribuição que ocorreu nos primeiros anos deste século as beneficiou via crescimento do PIB e aumento das vendas de seus negócios particulares, sejam pontos comerciais, consultórios, empresas de entretenimento, alimentação etc. A interpretação do fenômeno de redistribuição foi quase sempre de uma forma direta e estreita, do ponto de vista de quem arcava com os custos mais altos dos prestadores de serviços, cujos símbolos mais notáveis eram as ocupações ligadas às atividades domésticas. Diante da tragédia humanitária que estamos enfrentando, estaria a sociedade brasileira disposta a defender um novo projeto de crescimento com inclusão ou manteria a marca histórica da exclusão?

Flavio Fligenspan é professor do Departamento de Economia e Relações Internacionais, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

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