A crise argentina na periferia: ‘A classe média não sai de férias, mas nós passamos fome’

Localizada no sul de Buenos Aires, VIlla 20 é uma das comunidades mais afetadas pela crise econômica argentina. Fotografia: Luiza Castro/Sul21

Villa 20 é uma comunidade com poucas vias principais pavimentadas, cruzadas por uma grande quantidade de ruas de chão batido e recortada por casas que se espalham por becos e vielas, nem todos com nomes. A fiação aérea improvisada dá o tom de que, onde os serviços públicos não chegam, a população recorre mesmo ao gato. A numeração, na maioria das casas, foi pintada a tinta na fachada, mas ninguém tem endereço formal, não há comprovante de residência e nada parecido com título de posse. O carteiro não chega, deixa as cartas em algum local na entrada da vila.

Crianças brincam em meio a poças d’água, mesmo o dia sendo de sol, e ao lixo. Há cachorros por todos os lados, soltos ou atrás de grades. Há um vibrante comércio de bairro, nem sempre formal. Há carros abandonados em estado deplorável, veículos que trafegam com plásticos no lugar do vidro traseiro, mas também há caminhonetes aparentemente novas. Há casas que parecem recém construídas, mas a maioria não tem acabamento, via de regra ampliação de um puxadinho ainda inacabado. Podia ser em Porto Alegre, Rio de Janeiro, São Paulo ou qualquer grande cidade do Brasil, mas fica em Buenos Aires.

Villa 20 é uma área de ocupação que surgiu em um terreno que anteriormente era público há mais de 50 anos. Localizada no bairro de Lugano, na região conhecida como Comuna 8, é uma das comunidades mais pobres da capital. Das mais de 40 quadras da vila, apenas cinco são consideradas urbanizadas.

Nancy Orellana, 46 anos, vive em Lugano há 25 anos. Como boa argentina, ela já está acostumada a crises, mas diz que está é a mais grave que já acompanhou. “No centro, a crise é uma coisa, mas não se compara com aqui. Lá fora, os moradores podem ficar sem dinheiro para pagar impostos, podem não sair de férias, não trocar o carro. Aqui, falta o básica. As prioridades e preocupações básicas são o dia a dia. É comer. Poder dar quatro refeições à família, o que às vezes não chega, lamentavelmente”, diz.

O aumento da pobreza e da fome foi um dos principais temas do debate eleitoral que precedeu as eleições argentina, realizadas neste domingo (27). No início de outubro, a pobreza alcançou 35,4% dos argentinos, o que significa que há 16 milhões de pessoas vivendo abaixo da linha da pobreza no país, das quais 3,4 milhões em situação de indigência. A oposição coloca na conta do atual presidente Maurício Macri 5 milhões delas. Após os índices caírem nos dois primeiros anos de seu governo, eles voltaram a disparar desde o início de 2018. O percentual de pobreza subiu 10 pontos percentuais, e o de indigência quase 3 pontos.

Nancy Orellajana vive há 26 anos em Villa 20 e diz que nunca viu uma situação tão ruim. Fotografia: Luiza Castro/Sul21

Em Villa 20, essa aumento da pobreza significa que comer virou um luxo. “Para alimentar adequadamente uma família, são 33 mil pesos. É uma loucura. Há crianças que vão dormir sem comer. Se tem cinco filhos e precisa comprar pão pela manhã, são 100 pesos. Vão outros 100 pesos de tarde para a merenda. Já são duzentos pesos. Sem contar o leite. Preparar um almoço são mais de 500 pesos. Carne é algo incomparável. Aqui, comer virou um luxo”, diz.

O desemprego é  um dos principais problemas do país. No segundo trimestre deste ano, atingiu a marca de 10,6%. Além disso, somente 42,6% dos argentinos têm emprego formal. Assim como nas periferias do Brasil, a saída para muitos moradores de Villa 20 tem sido o mercado informal. O problema é que muitas pessoas nessa situação sequer recebem 12 mil pesos (equivalente a cerca de R$ 800)

Muitos moradores dependem apenas de programas sociais. O principal deles é o de Asignación Universal por Hijo, uma espécie de Bolsa Família portenho, que paga (em valores de novembro) 2.651 pesos (cerca de R$ 175) por filho menor de 18 para cada família, limitado ao máximo de cinco filhos.

“Tem famílias que têm assegurado pelo menos o almoço ou a janta, mas tem famílias que não tem nada assegurado”, diz Nancy. “Tu compra pão e leite um dia e já te vão 150 pesos. Antes as pessoas conseguiam ter uma poupança, agora não. É dia a dia. Já não se pode pensar em comprar um par de sapatos, em comprar uma roupa. Não, agora é só comer, o que antes não acontecia. Havia uma preocupação de arrumar a casa, comprar um carrinho, agora é a comida. É terrível a necessidade de não chegar comida para as pessoas. Tem para duas semanas, nas outras duas não se sabe”, diz.

Na região mais precária de Buenos Aires

Segundo relatório de monitoramento dos serviços públicos nas vilas de Buenos Aires, produzido pela Defensoria Pública local, em 2016 Villa 20 tinha 28 mil moradores, de 9,1 mil famílias, que habitavam 4,5 mil domicílios.

O relatório aponta que 93,3% das ligações elétricas estão em condição irregular. Em pelo menos 60%, os cortes de energia são frequentes. Há encanamento levando água para todos os setores do bairro, mas o que chega às torneiras da maioria das casas é uma água de baixa pressão, por vezes com cor e odor. Um caminhão-pipa leva água para a comunidade três vezes ao dia para suprir a falta em algumas residências.

O déficit de esgoto também é considerado alto, com vizinhos fazendo conexões uns com os outros, o que coloca a comunidade em situação de risco sanitário, segundo a Defensoria. Apenas 13% das moradias contam com serviço regulamentado de internet. Por outro lado, 73,3% têm acesso a internet apenas pelo telefone celular. “Os moradores da Villa 20 têm os seus direitos a prestação de serviços públicos violados”, diz o relatório. “Os serviços públicos estão se distanciando dos parâmetros que regem a prestação na cidade formal”.

Serviços públicos, como eletricidade, são precários no bairro. Fotografia: Luiza Castro/Sul21

Segundo dados do Primeiro Índice de Bem-Estar Urbano, realizado em Buenos Aires no ano passado, a Comuna 8, onde está localizada a Villa 20, tinha a maior taxa de desemprego da cidade, 13,7%, e a menor renda per capital (US$ 610 mensais), indicadores que certamente pioraram desde então com o aprofundamento da crise econômica.

Além disso, tinha a pior taxa de mortalidade (11,9 para cada mil nascidos com vida) e o pior nível de acesso a educação, 13% abaixo da média, sendo a região com menor número de escolas per capita. Como não há vagas na comuna 8 para todas as suas crianças e os alunos são indicados para as escolas públicas por meio de sorteio, muitas famílias acabam tendo que levar seus filhos para outros bairros. Quem não tem condições financeiras, acaba ficando de fora do sistema escolar. Também não há nenhum hospital na região, e apenas dois postos de saúde, que estão em condições precárias de insumos, segundo relatos dos moradores.

Organização para enfrentar a crise

Para tentar contornar a falta de trabalho, o movimento social La Poderosa, que tenta organizar a comunidade politicamente, adota uma série de ações. Criado em 2004, na favela de Villa Zavaleta, em Buenos Aires. Nasce originalmente como uma assembleia para organizar partidas de futebol misto do bairro, reunindo meninos e meninas, que eram disputadas sem juízes, mas ainda assim precisavam de uma mínima organização. Do futebol popular, as assembleias populares passaram a discutir problemas de Villa Zavaleta, como solucioná-los e, se fosse o caso, como pressionar o poder público para resolvê-los.

Liderança do movimento, Daniela Mérida diz que o papel das assembleias é discutir os problemas reais que os bairros enfrentam e exigir do Estado que esteja presente e que faça políticas públicas para responder às necessidades, seja de educação, saúde, alimentar. “Em um momento estamos bem, mas depois chega um governo neoliberal como este e estamos de volta a 2001, talvez não tão mal, mas de volta ao mesmo caminho”, diz.

Hoje, a La Poderosa se estende por quase 100 bairros populares argentinos e mais 12 países da América Latina, incluindo o Brasil. O nome La Poderosa é uma referência à motocicleta com a qual Che Guevara e Alberto Granado viajaram pela América do Sul. Em Buenos Aires, o movimento, que tem cunho socialista, mas se diz apartidário, está em sete das 114 vilas da capital.

Raúl diz que o movimento preferia que não fosse necessário ter programas assistenciais, mas não se pode fugir da realidade. Fotografia: Luiza Castro/Sul21

Raúl Gastón Serazzolo, chegou em Villa 20 há duas décadas, quando tinha apenas 8 anos anos. Quando seus pais se separaram, deixou a escola e nunca mais voltou. “Isso não impede alguém de estudar, mas quando a classe alta diz que não estudou porque não quis, não sabe que é difícil ter que ajudar a mãe e dois irmãos pequenos”, diz.

Hoje, é uma das lideranças do La Poderosa que tenta organizar os moradores da comunidade. “É algo que me enche de orgulho, porque estamos militando para o nossa bairro, pelas nossas razões, para as necessidades nossas e dos vizinhos”.

Raúl conta que o movimento tenta promover a criação de cooperativas autogestionadas, mas diz que ficou cada vez mais difícil desenvolver esse trabalho. Na Villa 20, há uma cooperativa de produção de pães, a panificadora Mafalda, mas os insumos estão muito caros e a cooperativa tem dificuldades para se manter, muito também pelo fato de que os clientes de classe baixa não têm dinheiro para comprar os produtos.

Fotografia: Luiza Castro/Sul21

O que sobre então para alimentar as famílias são restaurantes comunitários e “panelões”. Alguns deles são governamentais, outros organizados pelos moradores e pela La Poderosa. Raúl, que é responsável por um desses “panelões”, diz que o movimento social não defende os restaurantes populares como alternativa de alimentação, preferia que todo mundo tivesse emprego e conseguisse comprar os próprios alimentos, mas não é a realidade do momento. “A classe baixa está sendo golpeada há quatro anos. É muito difícil”, diz.

Nancy, que também é uma liderança do movimento, lembra que, antigamente, a maioria dos frequentadores desses restaurantes populares eram mulheres com filhos. Agora, se veem muitos pais também. “A gente vê a vergonha na cara desses homens de não terem um trabalho. Não importa se tinham estabilidade, se tinham antiguidade, se perdeu, perdeu”, diz.

Na Villa 20, no sábado (26), havia poucas menções às eleições de domingo, com exceção de pichações com os nomes de Alberto Fernández e Cristina Kirchner, principal chapa de oposição e favorita a vencer o pleito.

Nancy faz questão de reforçar que o movimento social é apartidário e que não confia em nenhum governo, mas esperava que as eleições promovesse uma mudança no poder. “Todos os governos se esqueceram destes lugares, mas este foi um governo sem coração. Um governo que veio para enriquecer os seus amigos, enriquecer os que já eram ricos e empobrecer os que já eram pobres. E fez bem o seu trabalho. Não dá para dizer que fizeram mal, mas os prejudicados fomos nós, os pobres”, diz.

Fonte: Sul21
Texto: Luís Eduardo Gomes
Data original da publicação: 27/10/2019

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