A crença na meritocracia não é apenas falsa: é ruim para você

A crença na meritocracia não é apenas falsa: é ruim para você
Fotografia: Michael Buholzer/Reuters

Clifton Mark

Fonte: Nexo
Tradução: Camilo Rocha
Data original da publicação: 08/03/2019

“Permanecemos fiéis ao nosso credo quando uma menininha nascida na pobreza mais desesperançosa sabe que tem a mesma chance de ter sucesso que qualquer outra pessoa…”

– Barack Obama, Discurso de posse, 2013

“Devemos criar condições de igualdade para empresas e trabalhadores americanos”

– Donald Trump, Discurso de posse, 2017

A meritocracia se tornou um importante ideal social. Políticos de todo o espectro ideológico seguidamente retornam ao tema de que as recompensas da vida – dinheiro, poder, empregos, admissão na universidade – deveriam ser distribuídas de acordo com a habilidade e o esforço. A metáfora mais comum é o “jogo equilibrado” em que os jogadores podem ascender à posição correspondente ao seu mérito. Conceitual e moralmente, a meritocracia é apresentada como o oposto de sistemas como a aristocracia hereditária, na qual a posição social é determinada pela loteria do nascimento. Sob a meritocracia, riqueza e vantagem são a justa remuneração do mérito, não o inesperado resultado de eventos externos.

A maioria das pessoas não apenas acha que o mundo deveria funcionar meritocraticamente, elas acham que ele é meritocrático. No Reino Unido, 84% dos entrevistados de uma pesquisa sobre “atitudes sociais britânicas”, de 2009, afirmaram que o trabalho duro é “essencial” ou “muito importante” quando se trata de progredir, e, em 2016, o Brookings Institute descobriu que 69% dos americanos acreditam que as pessoas são recompensadas pela inteligência e pela habilidade. Os entrevistados dos dois países acreditam que fatores externos, como a sorte e ter nascido em família rica, são muito menos importantes. Essas ideias, difundidas nesses dois países, são populares em todo o mundo.

Embora amplamente aceita, a crença de que o mérito, e não a sorte, determina o sucesso ou o fracasso no mundo, é demonstravelmente falsa. E não é menos importante o fato de que o próprio mérito é, em grande parte, o resultado da sorte. O talento e a capacidade para o esforço determinado, às vezes chamado de “garra”, dependem muito dos dotes genéticos e da criação de uma pessoa.

Sem falar das circunstâncias fortuitas que aparecem em cada história de sucesso. Em seu livro “Success and Luck” (Sucesso e sorte, em tradução livre, de 2016), o economista Robert Frank relata os acontecimentos improváveis e coincidências que levaram à ascensão estelar de Bill Gates como fundador da Microsoft, assim como ao próprio sucesso de Frank como acadêmico. A sorte intervém conferindo mérito às pessoas e, mais uma vez, ao fornecer circunstâncias nas quais o mérito pode se traduzir em sucesso. Isso não é negar o esforço e o talento de pessoas bem-sucedidas. No entanto, isso demonstra que a ligação entre mérito e resultado é tênue e indireta, na melhor das hipóteses.

Onde o sucesso é determinado pelo mérito, cada vitória pode ser vista como um reflexo da própria virtude e valor de um indivíduo. A meritocracia é o mais autocongratulatório dos princípios de distribuição.

De acordo com Frank, isso é especialmente verdadeiro quando o sucesso em questão é grande e onde o contexto no qual ele é alcançado é competitivo. Certamente há programadores quase tão hábeis quanto Gates que não conseguiram se tornar a pessoa mais rica da Terra. Em contextos competitivos, muitos têm mérito, mas poucos conseguem. O que separa os dois é a sorte.

Além da questão da meritocracia ser falsa, um crescente corpo de pesquisa em psicologia e neurociência sugere que acreditar na meritocracia torna as pessoas mais egoístas, menos autocríticas e ainda mais propensas a agir de maneira discriminatória. A meritocracia não é apenas errada; é má.

O “jogo do ultimato” é um experimento comum nos laboratórios de psicologia. Nele, um jogador (o proponente) recebe uma quantia em dinheiro e é instruído a propor uma divisão entre ele e outro jogador (o respondente), que pode aceitar a oferta ou rejeitá-la. Se o respondente rejeitar a oferta, nenhum jogador recebe nada. O experimento foi replicado milhares de vezes, e geralmente o proponente oferece uma divisão relativamente uniforme. Se o valor a ser compartilhado for de US$ 100, a maioria das ofertas fica entre US$ 40 e US$ 50.

Uma variação deste jogo mostra que acreditar que um jogador é mais habilidoso leva a um comportamento mais egoísta. Em pesquisa na Universidade Normal de Pequim, os participantes jogaram um falso jogo de habilidade antes de fazer ofertas no jogo do ultimato. Jogadores que foram (falsamente) levados a acreditar que tinham “vencido” reivindicaram mais para si do que aqueles que não jogaram o jogo da habilidade. Outros estudos confirmam esse achado. Os economistas Aldo Rustichini, da Universidade de Minnesota, e Alexander Vostroknutov, da Universidade de Maastricht, na Holanda, descobriram que os participantes que primeiro se envolviam em um jogo de habilidade eram muito menos propensos a apoiar a redistribuição de prêmios do que aqueles que se envolviam em jogos de azar. Só o fato de ter a ideia de habilidade em mente torna as pessoas mais tolerantes com relação a resultados desiguais. Embora tenha se constatado isso em todos os participantes, o efeito foi muito mais detectado entre os “vencedores”.

Por outro lado, pesquisas sobre gratidão indicam que lembrar do papel da sorte aumenta a generosidade. Frank cita um estudo em que apenas pedir para que os participantes lembrassem fatores externos (sorte, ajuda de outros) de seus sucessos na vida os tornava muito mais propensos a doar para a caridade do que aqueles que tinham de lembrar de fatores internos (esforço, habilidade).

Talvez mais perturbador, a simples consideração da meritocracia como um valor parece fomentar um comportamento discriminatório. O acadêmico de administração Emilio Castilla, do MIT, Instituto de Tecnologia de Massachusetts, e o sociólogo Stephen Benard, da Universidade de Indiana, estudaram tentativas de implementar práticas meritocráticas, como compensação baseada em desempenho em empresas privadas. Eles descobriram que, nas empresas que explicitamente consideravam a meritocracia como um valor central, os gerentes atribuíam recompensas maiores a empregados do sexo masculino do que às funcionárias do sexo feminino com avaliações de desempenho idênticas. Essa preferência desapareceu quando a meritocracia não foi explicitamente adotada como valor.

Isso é surpreendente porque a imparcialidade é central para o apelo moral da meritocracia. O “jogo equilibrado” destina-se a evitar desigualdades injustas com base em gênero, raça e afins. No entanto, Castilla e Benard descobriram que, ironicamente, tentativas de implementar a meritocracia levam apenas aos tipos de desigualdade que ela pretende eliminar. Eles sugerem que esse “paradoxo da meritocracia” ocorre porque a adoção explícita da meritocracia como um valor convence os sujeitos de sua própria boa-fé moral. Satisfeitos por serem justos, tornam-se menos inclinados a examinar seu próprio comportamento em busca de sinais de preconceito. A meritocracia é uma crença falsa e não muito salutar. Como acontece com qualquer ideologia, parte de seu atrativo é que ela justifica o status quo, explicando por que as pessoas pertencem ao lugar em que se encontram na ordem social. É um princípio psicológico bem estabelecido que as pessoas preferem acreditar que o mundo é justo.

Entretanto, além da legitimação, a meritocracia também proporciona adulação. Onde o sucesso é determinado pelo mérito, cada vitória pode ser vista como um reflexo da própria virtude e valor de um indivíduo.

A meritocracia é o mais autocongratulatório dos princípios de distribuição. Sua alquimia ideológica transforma a propriedade em louvor, a desigualdade material em superioridade pessoal. Ela autoriza os ricos e poderosos a se verem como gênios produtivos. Embora esse efeito seja mais espetacular entre a elite, praticamente qualquer conquista pode ser vista por meio de olhos meritocráticos. Se formar no ensino médio, sucesso artístico ou simplesmente ter dinheiro pode ser visto como evidência de talento e esforço. Da mesma forma, fracassos mundanos tornam-se sinais de defeitos pessoais, fornecendo uma razão pela qual aqueles que estão na base da hierarquia social merecem permanecer lá.

É por isso que os debates sobre até que ponto indivíduos específicos “se fizeram sozinhos” e sobre os efeitos de várias formas de “privilégio” podem se tornar tão acalorados. Esses argumentos não são apenas sobre quem consegue ter o quê; é sobre o quanto de “crédito” podem receber pelo que têm, é sobre o que seus sucessos permitem que eles acreditem a respeito de suas qualidades internas. É por isso que, sob o pressuposto da meritocracia, a própria noção de que o sucesso pessoal resulta de “sorte” pode ser ofensivo. Reconhecer a influência de fatores externos parece minimizar ou negar a existência do mérito individual.

Apesar da garantia moral e da adulação pessoal que a meritocracia oferece aos bem-sucedidos, ela deveria ser abandonada tanto como crença sobre como o mundo funciona quanto como um ideal social geral. Ela é falsa, e acreditar nela encoraja o egoísmo, a discriminação e a indiferença em relação ao sofrimento dos desafortunados.

Clifton Mark escreve sobre teoria política, psicologia e outros tópicos relacionados a estilo de vida. Ele mora em Toronto, Ontário.

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