A conexão entre Aspirina, chocolate Bis e trabalho escravo

Trabalhadores na extração da carnaúba. Fotografia: Grupo Especial de Fiscalização Móvel

A Aspirina, um dos medicamentos mais vendidos na história, tem trabalho escravo em sua composição.

Marques Casara

Fonte: Brasil de Fato
Data original da publicação: 11/11/2019

Carnaúba é um tipo de palmeira que só existe no Brasil, principalmente nos estados do Piauí e do Ceará. De suas folhas é extraída uma cera usada em várias aplicações da indústria farmacêutica e dos setores de cosméticos e alimentos. A cera de carnaúba é um dos melhores produtos conhecidos, por exemplo, para conter umidade. 

A Aspirina contém cera de carnaúba brasileira. Se você masca chiclete Bubbaloo ou come chocolate Bis (fabricados pela Mondelez), eles também levam carnaúba. O problema é que essa carnaúba, que ajuda e curar sua dor de cabeça ou te dar o prazer de comer um chocolate, é produzida por trabalhadores escravos.

No setor farmacêutico, as empresas que se beneficiam do trabalho escravo na cadeia produtiva da carnaúba são: Bayer (dona da Aspirina), Merck, Novartis, Pfizer e Janssen. Um ou mais medicamentos dessas empresas usam carnaúba do trabalho escravo. O produto vem de locais onde homens e mulheres ainda são tratados como porcos, literalmente. Dormem em chiqueiros, não têm banheiro, não têm água potável. São escravos a serviço de indústrias bilionárias. 

É simbólico que a Aspirina, um dos medicamentos mais vendidos na história, tenha trabalho escravo em sua composição. Porque trabalhadores escravos, ao contrário do que muita gente pensa, continuam a ser explorados pelas maiores indústrias do mundo. O Brasil ainda é um repositório de escravos para indústrias europeias e norte-americanas. Muitos trabalhadores brasileiros aceitam ser escravos para não morrer de fome. 

Na produção da cera de carnaúba, a exploração do trabalho escravo é uma questão grave e que ainda atormenta defensores dos direitos humanos. Melhorias importantes foram alcançadas nos últimos anos, graças a um dedicado grupo de servidores públicos, auditores do trabalho e procuradores do Ministério Público do Trabalho (MPT). Para enfrentar o trabalho escravo nessa cadeia produtiva, criaram uma iniciativa chamada Palha Acolhedora, que aumentou a pressão sobre as empresas exportadoras, que mudaram parte de suas práticas. Mas os problemas ainda continuam, muito por culpa das grandes multinacionais, que fecham os olhos, compram de qualquer jeito e fazem de conta que não é com elas.

Conversei com um dos procuradores do MPT à frente da iniciativa, Carlos Henrique Pereira Leite, do Piauí. Ele relaciona avanços importantes, graças à assinatura de termos de ajustamento de conduta com as empresas processadoras, que exportam para as grandes marcas. “As empresas agora são obrigadas a manter um cadastro de fornecedores e a auditar ao menos 25% da produção, o que é um avanço, porque antes era tudo informal”, resume o procurador. 

O ponto fraco é ausência de fiscalização. Atualmente – na carnaúba e em dezenas de outras cadeias produtivas –, é praticamente impossível realizar ações de fiscalização. As verbas do Executivo Federal simplesmente desapareceram, o que limitou bastante as inspeções, feitas com as poucas verbas existentes do próprio MPT. 

Como é sabido, quando some a verba da fiscalização, o principal beneficiado é o violador de direitos, o explorador do trabalho escravo e infantil. Segundo o procurador, o problema só será resolvido com ações de fiscalização constantes, exemplares e educativas.

Em sua dissertação de mestrado pela Universidade Católica de Brasília, o procurador Carlos Henrique faz uma análise da aplicação, nos estudos de cadeia produtiva, da teoria da cegueira deliberada: “Responsabiliza aquele que, intencionalmente, coloca-se em condição de ignorância frente a uma conjuntura ou situação que tinha um dever razoável e objetivo de conhecer”. 

Escravos modernos vicejam nos campos de trabalho de um Brasil em rota de colisão com a garantia dos direitos. O viés é de piora. Se isso incomoda você, tome uma Aspirina ou coma um chocolate para relaxar. Ou levante do sofá e tente fazer o que pode. Tente fazer algo em defesa dos direitos humanos.

Marques Casara é jornalista especializado em investigação de cadeias produtivas. Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC/SP.

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