A Amazon e os trabalhadores

A Amazon e os trabalhadores
Fotografia: PA Wire/PA Images

Recentemente, o “New York Times” traçou um perfil da maneira como se trabalha na Amazon. Para fazê-lo, o repórter foi acompanhado por um gerente da Amazon. E o resultado foi um retrato bajulador de trabalho na Amazon do qual só um chefe poderia gostar.

Marc Kagan

Fonte: Vermelho
Tradução: José Carlos Ruy
Data original da publicação: 12/07/2019

Durante trinta anos o repórter de relações trabalhistas do “New York Times” foi Steven Greenhouse. Ele não era radical, mas pelo menos demonstrou a crença de que os trabalhadores obtinham o mínimo, conforme está dito no título de seu livro, “The Big Squeeze: Tough Times for the American Worker” (“O Grande Aperto: Tempos Difíceis para o Trabalhador Americano”).

Quem fazia a cobertura trabalhista no “Times”, antes de Greenhouse, era William Serrin. Seu livro mais conhecido, “The Company and the Union: The ‘Civilized Relationship’ of the General Motors Corporation and the United Automobile Workers” (“A Empresa e o Sindicato: O ‘Relacionamento Civilizado’ da General Motors Corporation e da United Automobile Workers”) detalhou como a empresa e o sindicato colaboraram para aumentar a produtividade (e os salários) à custa das demandas dos trabalhadores, facilitando a brutalidade da linha de montagem.

Fábricas poderiam ser humanizadas, pensava Serrin. Mas isso exigia acreditar que os homens e mulheres que nelas trabalham não são idiotas, mas capazes de reimaginar seu trabalho de uma maneira mais satisfatória e menos brutal, e eram capazes de fazê-lo. Serrin não achava que eram idiotas, e lamentava os abusos a que eram submetidos.

Serrin morreu em 2018, e agora deve estar rolando no túmulo porque o atual responsável pela área trabalhista no “Times”, Noam Sheiber, acha que a melhor maneira de descobrir como é trabalhar em uma das mais importantes empresas do mundo, a Amazon, pode ser um passeio por suas instalações no Staten Island Center: “em meados de maio, passei algumas horas, com um gerente da empresa a reboque, observando os trabalhadores e perguntando sobre seus trabalhos. No final, concluí que os dois lados tinham razão”.

Como Sheiber tem olhos e não é idiota, não pôde deixar de ver que o trabalho é “repetitivo”, fazendo os trabalhadores “se assemelharem a robôs”. Ainda assim, ele insiste, “o problema pode ser menos com a Amazon do que com a própria tecnologia”. Magicamente, segundo Scheiber, a tecnologia existe de forma autônoma para o capitalista ou o engenheiro – ninguém assume nenhuma responsabilidade pelas condições de trabalho (e, portanto, ninguém pode ser responsabilizado por isso).

Além disso, os trabalhadores com quem Sheiber conversou – mais uma vez, “com um acompanhante da empresa a tiracolo” – pareciam alegres. Um “parecia ser um funcionário de ponta da Amazon”. O que realmente excitou Sheiber foi que esse trabalhador era alguém que via o mundo pelos olhos de um gerente… “Eu tento encontrar maneiras de me tornar mais eficiente”, disse. É claro que qualquer local de trabalho tem alguns stakhonovistas [referência a Alexei Stakhanov, que foi um operário padrão na União Soviética na década de 1930 – NR). Mas não é mais provável – e isso deveria ter sido óbvio para Scheiber – que o funcionário achou que essa era uma maneira fácil de agradar o chefe?

Um segundo trabalhador também se gabava de trabalhar cada vez mais: ele se motivou competindo com um amigo em uma outra parte da instalação para ver quem poderia ganhar o ranking de maior produtividade. “Na semana passada, eu estava no lugar quarenta e um”, disse ele. “Esta semana, estou tentando ficar entre os 10 primeiros.” Um terceiro, parecendo se lembrar que o ouvido do chefe estava ali, respondeu, ao ser perguntado se via algum benefício num sindicato: “O maior benefício é a segurança no emprego”. E rapidamente acrescentou: “Os gerentes aqui não querem demitir pessoas – eles só querem que trabalhem duro”.

Isso é exatamente correto: a demissão e a reciclagem têm custos, sendo muito mais fácil e barato para um capitalista fazer com que os trabalhadores permaneçam num emprego em que mais e mais lucros possam ser extraídos. O famoso “salário de US $ 5 por dia” de Henry Ford não foi um ato humanitário, mas uma resposta às taxas de rotatividade da mão-de-obra chegando a 200% ao ano. O capitalista racional, na Amazon e em qualquer outro lugar, não quer demitir: querem que você aceite de bom grado sua desumanização.

A empolgação de Sheiber em relação a um local de trabalho que faz com que os trabalhadores “se assemelhem a robôs”, e os incentiva a “se divertir”, “fazer história”, é tão palpável, e o deixa quase tonto. “O gerente geral, Chris Colvin, sabia muitos nomes de seus funcionários e brincava com eles amigavelmente.” A Amazon já está treinando os filhos desses trabalhadores para serem bons funcionários – “recentemente realizou um concurso para seus filhos mostrarem as práticas de segurança no trabalho: como dobrar os joelhos e usar luvas”. Isso passou despercebido por Sheiber; é uma atividade divertida!

“Interfaces de videogame… permitir que os trabalhadores acumulem pontos e cartões ao completar as tarefas….. O caixote que contém a chave de fenda ou relógio ou garrafa de vitaminas simplesmente acende, transformando o exercício” – o que significa que a tarefa em que os empacotadores fazem “300 a 400” vezes por hora é como um jogo.

O mais pernicioso de tudo é o modo como Sheiber usa os próprios trabalhadores para nos fazer sentir bem com tudo isso. Falou-se muito do trabalho na Amazon porque seus empregos anteriores eram mais entediantes – “ex-motorista do Uber, ex-faxineiro e ex-assistente de gerente de frios” -, e vieram para a Amazon em empregos que pagavam ainda menos. Há trabalhos piores, então não há necessidade de mexer nas condições de trabalho ou salários – esses trabalhadores devem ser gratos.

Sheiber não pensou em perguntar há quanto tempo estão lá, nem quanto tempo planejam ficar. Não pediu uma lista de trabalhadores que poderia contatar fora da empresa. Não conseguiu estatísticas sobre as taxas de acidentes no trabalho. Em vez disso, termina com uma anedota sobre “pequenos atos de rebelião”.

Perto da entrada da instalação em Staten Island havia um carrinho com uma grande pilha de bananas. Uma placa anunciava que as bananas eram grátis (“Sim, grátis!”), mas com uma condição: “Por favor, pegue apenas uma de cada vez”…. Eu estava perto quando vi uma mulher passar e pegar duas. A segunda banana aparentemente torna iguais os trabalhadores e a Amazon.

Há mais de cem anos, Frederick Taylor escreveu “Princípios de Gestão Científica”, um tratado sobre como acelerar o trabalho e, ainda mais importante, tirar do trabalhador todo o controle sobre a produção, através do estudo do tempo e do movimento.

Taylor pensava que em sua maioria os trabalhadores eram preguiçosos, produzindo “em muitos casos não mais que de um terço a metade do trabalho de um dia”. E, como William Serrin disse, achava que os trabalhadores eram idiotas. “O trabalhador que é mais adequado para realmente fazer o trabalho é incapaz de compreender totalmente esta ciência, sem a orientação e ajuda daqueles que estão trabalhando acima dele….. quase todo ato do trabalhador deve ser precedido por um ou mais atos preparatórios da administração, que o leve a fazer seu trabalho melhor e mais rapidamente do que poderia. Essa é a essência da moderna gestão científica ou de tarefas.”

Existem duas maneiras de olhar para o trabalho e os locais de trabalho. A Amazon quer que pensemos como um consumidor: entrega mais rápida, mais barata, de um dia, entrega de duas horas…

Podemos pensar em nossas vidas como trabalhadores, como produtores, sobre a maneira como gostaríamos de ser tratados (e pagos). O trabalho – essa coisa que consome metade de nossas vidas acordados – não deve ser intolerável, não precisa ser intolerável. Isso pode ser tolerado, se os trabalhadores – não os benevolentes gerentes da Amazon – agirem para fazê-lo. Noam Sheiber parece muito mais confortável com os gerentes da Amazon.

Marc Kagan é doutorando no departamento de história do CUNY Graduate Center, em Nova York (EUA). Foi agente de trânsito em Nova York e membro do Sindicato dos Trabalhadores em Transportes.

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