9 de junho de 1817: ocorre a rebelião de trabalhadores em Pentrich, última tentativa armada de derrubar o governo no Reino Unido

Há 203 anos, ocorria a rebelião de trabalhadores em Pentrich, última tentativa armada de derrubar o governo no Reino Unido

Ilustração retratando o “capitão de Nottingham”, Jeremiah Brandreth, planejando a rebelião de Pentrich, em 1817. Ilustração: Universal History Archive/Getty Images

Igor Natusch

Um dos muitos momentos de tensão decorrentes da crise econômica gerada pelas Guerras Napoleônicas no Reino Unido, a rebelião de Pentrich acabou sendo também a última tentativa de revolução registrada em solo inglês.

Disparada na noite de 9 de junho de 1817 por um grupo de pedreiros, metalúrgicos, trabalhadores da indústria de meias e ex-soldados sem emprego, a revolta acabou sendo reprimida de forma rápida e brutal. Ainda assim, o evento deixou uma marca importante na história dos movimentos operários do Reino Unido, e vem sendo resgatada nas últimas décadas por estudiosos ligados ao mundo sindical.

Com o fim da mobilização de guerra, a indústria ligada ao ferro e ao carvão sofreu grandes prejuízos – um cenário que se somou aos acelerados processos tecnológicos da Revolução Industrial ainda em curso para gerar grandes contingentes de desempregados. A essa situação, se somou um momento fervilhante no pensamento político local: por um lado, crescia a demanda por reformas parlamentares e por ações que protegessem as classes trabalhadoras, enquanto as elites governantes pressionavam (não raro de forma severa) contra qualquer tipo de reforma.

Nos dois anos anteriores, uma série de distúrbios foram registrados na região de Nottingham, na Inglaterra – boa parte deles relacionados com a ocorrência de saques por trabalhadores desempregados e famintos. Na vila de Pentrich, um núcleo ligado ao movimento radical britânico passou a discutir preparativos para uma rebelião, capaz de pressionar os governantes a promover reformas políticas. Liderados por Jeremiah Brandreth, um ex-ludita e trabalhador desempregado da costura de meias, eles decidiram disparar a revolta armada após receberem informes de que uma força revolucionária, somando 70 mil homens, vinha do norte em direção a Londres. A ideia era arregimentar homens, armamento e provisões na marcha até Nottingham e, tão logo tivessem tomado o controle da cidade, juntar-se às tropas maiores em um assalto à capital do país. O problema é que ninguém estava vindo do norte: o levante nacional era uma farsa, provavelmente criada por William Richards, contratado por agentes do governo central para espionar grupos revolucionários da região das Midlands inglesas, que incluiu o condado de Nottingham.

Disparada de forma precipitada por homens pouco armados e em uma noite de muita chuva, a rebelião iniciada em Pentrich na noite de 9 de junho de 1817 foi um fracasso. Entre duzentos e trezentos homens iniciaram a marcha, mas vários foram ficando para trás pelo caminho – alguns revoltados com um gesto de Brandreth, que atirou contra uma casa que recusou ajuda e acabou matando um dos serviçais que lá estava. Em meio a promessas de refeições quentes e, mais tarde, ameaças de fuzilamento contra quem tentasse desertar, um grupo reduzido chegou, no amanhecer de 10 de junho, até o vilarejo de Giltbrook. Lá, um batalhão de soldados estava a postos. Cansados, assustados e com a moral baixa, os revolucionários se dispersaram, sem promover qualquer confronto maior com as forças militares.

A partir daí, o governo tratou de usar o caso como exemplo, buscando desencorajar ações semelhantes. Durante o julgamento, o provável papel de Richards em insuflar a revolta foi mantido em segredo, uma vez que a ação de um agitador poderia ter influenciado o júri a ser menos severo com os acusados. Três participantes – Jeremiah Brandreth, Isaac Ludlam e William Turner – foram condenados à morte e executados, em 7 de novembro daquele ano. A punição, contudo, não teve o efeito esperado: não apenas boa parte da opinião pública revoltou-se com o uso de agentes provocadores e a severidade do veredito, como movimentos reformistas tornaram-se ainda mais fortes nos anos posteriores, a partir do crescimento dos radicais e, a partir dos anos 1830, do surgimento do cartismo.

Compartilhe

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *