28 de março de 2017: greve geral é deflagrada na Guiana Francesa, marcando o maior período de protestos da história do território francês

Há três anos, greve geral era deflagrada na Guiana Francesa, marcando o maior período de protestos da história do território francês.

Fotografia: Jody Amiet/AFP

Igor Natusch

Um dos territórios vizinhos menos lembrados pelos brasileiros, a Guiana Francesa viveu o mais amplo protesto de sua história no dia 28 de março de 2017. Em meio a uma onda de insatisfação popular (que já havia levado, dias antes, ao fechamento de escolas e repartições públicas), foi decretada uma bem-sucedida greve geral, paralisando completamente o departamento ultramarino francês. Um movimento que tornou-se ainda mais coeso nos dias seguintes, forçando o governo francês a fazer significativos investimentos na região.

Os protestos tiveram início uma semana antes, no distrito de Kourou, quando manifestantes se opuseram à privatização de um hospital, conduzido até então pela Cruz Vermelha. Mas as raízes da revolta eram mais profundas, ligadas ao desemprego e ao aumento da sensação de insegurança em um território marcado pelo convívio (por vezes bastante tenso) entre diferentes grupos sociais. Outro aspecto importante refere-se a uma sensação de abandono por parte da França, com acusações de falta de investimento e de indiferença política, diante de tarifas (impostas, entre outros, pelos vizinhos Suriname e Brasil) que aumentam o custo de vida na Guiana Francesa.

A partir do final de março, um grupo de manifestantes (usando toucas para esconder o rosto) passou a liderar ostensivamente os protestos, passando a ser conhecidos como “500 frères” (os quinhentos irmãos) – mais tarde, uma organização mais formal surgiu, chamada Pou La gwiyann dékolé (Coletivo para Fazer a Guiana se Mover, em tradução livre). Os atos logo se espalharam por outras regiões, chegando à capital Cayenne. Entre outras exigências, os revoltosos pediam investimentos da França na infraestrutura e nos serviços básico guianenses – o que foi, inicialmente, negado pelo governo de Paris. Com a escalada dos bloqueios, o aeroporto de Cayenne suspendeu os voos, e a base de lançamento de satélites localizada na Guiana Francesa (e utilizada por uma série de países, entre eles o Brasil) suspendeu os lançamentos por várias semanas.

Chamada de “dia morto” pela mídia local, a greve geral de 28 de março teve amplo apoio dos sindicatos guianenses, e cartazes dizendo “Nou bon ké sa” (“agora chega”, em crioulo guiano) marcaram as manifestações. Calcula-se que até 10 mil pessoas foram às ruas em Cayenne (um sexto da população total da capital) e departamentos como Maripasoula e Saint-Laurent-du-Maroni também vivenciaram protestos naquele dia. No começo de abril, o bloqueio nas estradas e no aeroporto levou à escassez de itens frescos, e a recusa do prefeito da Guiana Francesa, Martin Jaeger, em receber os manifestantes resultou no mais violento confronto daqueles dias, com uso de gás lacrimogêneo e resultando em um policial gravemente ferido.

O período de tensão na Guiana Francesa chegou ao fim em 21 de abril de 2017, quando o governo francês concordou com a liberação emergencial de 2,1 bilhões de euros, destinados a ações em segurança, educação e saúde pública – que se somaram a outros 1 bilhão de euros para obras de infraestrutura, confirmados no final de março e que foram considerados insuficientes pelos líderes grevistas. Os bloqueios de estradas foram removidos no dia seguinte ao acordo, marcando o fim de mais de um mês de revolta coletiva.

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