27 de fevereiro de 1944: morre o anarquista Manuel Joaquim de Sousa, decisivo na consolidação do sindicalismo em Portugal

Há 76 anos, morria o anarquista Manuel Joaquim de Sousa, decisivo na consolidação do sindicalismo em Portugal

Manuel Joaquim de Sousa discursando num comício de 1º de maio, no Parque Eduardo VII, em Lisboa. Fotografia: Arquivo Histórico-Social/Projecto MOSCA

Igor Natusch

A história sindical de Portugal dificilmente teria sido a mesma sem a presença de Manuel Joaquim de Sousa. Primeiro secretário-geral da Confederação Geral do Trabalho (CGT), orador de grande destaque, força motriz por parte do histórico diário sindical A Batalha, um dos fundadores da Federação Anarquista Ibérica, importante articulista e uma das mentes mais intensas e irredutíveis do anarco-sindicalismo português: tudo isso fez dele uma figura lendária para o pensamento libertário de seu país. Uma importância já amplamente reconhecida na ocasião de sua morte, no dia 27 de fevereiro de 1944 – e que vem sendo repetidamente reverenciada e reforçada nos círculos anarquistas e sindicais portugueses desde então.

Nascido em 1883 em uma família pobre do Porto, Manuel precisou trabalhar desde criança; depois de outras ocupações, começou a atuar como sapateiro aos 12 anos, profissão que o acompanharia durante toda a vida. Mesmo com pouca educação formal, sempre foi um leitor ávido, e a proximidade com as então incipientes fraternidades sindicais do setor calçadista logo fizeram dele um inquieto participante das mobilizações na virada para o século XX em seu país.

Seu envolvimento com o Comitê de Propaganda Sindicalista do Porto foi fundamental para disseminar ideias revolucionárias entre os trabalhadores e trabalhadoras de Portugal; mais tarde, ajudaria a viabilizar o igualmente importante Centro e Biblioteca de Estudos Sociais. Além disso, foi um dos principais organizadores dos primeiros Congressos Sindicalistas de Portugal – atividades que o alçaram à liderança da União Operária Nacional e, entre 1919 e 1922, da CGT, para quem redigiu o estatuto e várias de suas principais teses.

A vontade de disseminar informações sobre o pensamento anarquista o levou a criar publicações como A Vida (que durou de 1905 a 1910) e, em seguida, A Aurora (publicada durante quase uma década e que encerrou atividades em 1920). Mais tarde, com a fundação da CGT, tornou-se um dos principais redatores de A Batalha, talvez o mais importante jornal anarquista da primeira metade do século passado em Portugal. Publicou artigos em uma série de periódicos e editou livros como “Sindicalismo e Acção Directa” (1911) e “O Sindicalismo em Portugal”, publicado em 1931 e que recebeu uma série de reedições desde então.  

Enfático defensor das ideias anarquistas, Manuel Joaquim de Sousa era crítico feroz da Revolução Russa (que sempre denunciou como autoritária) e nunca aliou-se ao pensamento marxista e comunista disseminado entre seus pares. Uma série de artigos em A Batalha, intitulados A boa paz e publicados enquanto Sousa era redator-chefe do jornal (1921-1922), cristalizaram seu pensamento contrário ao Partido Comunista português. Após uma vida movimentada, que incluiu inúmeras disputas contra o governo e repetidos períodos na prisão, Manuel faleceu, aos 60 anos, em sua casa na Vila Cândida de Lisboa. 

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