24 de outubro de 1975: mulheres da Islândia promovem greve geral, revolucionando a relação entre gêneros no país

Há 44 anos, mulheres da Islândia promoviam greve geral, revolucionando a relação entre gêneros no país.

Fotografia: Ólafur K. Magnússon

Igor Natusch

A intensa luta dos movimentos feministas teve, na fria e esparsamente populada Islândia, um desdobramento dos mais simbólicos e memoráveis. No dia 24 de outubro de 1975, as mulheres do país europeu fizeram uma greve geral, como forma de exigir salários e direitos trabalhistas iguais aos dos homens islandeses. Conhecido no país como Kvennafrídagurinn, o movimento mobilizou mais de 90% das mulheres do país, causando um profundo impacto não apenas no dia em que ocorreu, mas também na legislação e no próprio imaginário do país. 

As organizações a favor de direitos plenos para as mulheres atuam na Islândia pelo menos desde o começo do século XX, embora a situação das trabalhadoras tivesse se deteriorado significativamente nas décadas anteriores à greve geral. Mulheres que trabalhavam fora de casa na Islândia ganhavam, em média, menos de 60% do salário recebido pelos homens, mesmo que exercessem muitas vezes as mesmas funções. Além disso, a cultura islandesa era fortemente marcada pela ideia de que mulheres deveriam apenas cuidar da casa e dos filhos, o que dificultava a busca por autonomia e independência financeira. 

Considerando que a ONU havia declarado 1975 como Ano Internacional das Mulheres, um comitê formado por movimentos civis ligados à causa feminista decidiu promover um “dia de folga” para todas as islandesas, fossem assalariadas ou donas de casa. Evitando usar o termo “greve”, elas conseguiram espalhar rapidamente a ideia entre as diferentes camadas da população, engajando praticamente todas as mulheres do pequeno país de 220 mil habitantes. Os relatos dos dias anteriores à “folga” dão conta de uma grande agitação, com filhas conversando com suas mães e avós e trabalhadoras tentando convencer as próprias chefes a se unirem à iniciativa. Na véspera do dia 24 de outubro, os supermercados tinham esgotado todo o estoque de salsichas, comida pronta favorita do país à época – um sinal pitoresco, mas inequívoco, da expectativa que tomava conta da ilha. 

Dizer que a paralisação lançou a Islândia no caos talvez não dê a real dimensão do acontecimento. Quase nenhuma escola ministrou aulas no país, já que praticamente todas as professoras e funcionárias eram mulheres. Serviços telefônicos foram interrompidos, a maioria das lojas ficou sem ninguém para trabalhar nos caixas e balcões, e qualquer atividade que dependesse de tipógrafas (incluindo a edição e rodagem de jornais impressos) acabou seriamente comprometida. Aos homens, não restou outra coisa senão levar os filhos consigo ao trabalho, já que as esposas se recusaram a executar tarefas domésticas e nenhuma creche conseguiu funcionar normalmente naquele dia. No centro da capital Reikjavik, uma grande manifestação reuniu 25 mil mulheres, número impressionante considerando a pequena população islandesa. 

Além de despertar o sentimento feminista entre as islandesas, o dia de folga foi um sucesso também em provocar mudanças concretas na ilha nórdica. Em 1976, o parlamento aprovou uma lei garantindo salários iguais a homens e mulheres – texto que teve pouco efeito prático imediato, mas cristalizou o debate em torno da igualdade de gêneros na opinião pública. Em 1980, a Islândia elegeu sua primeira presidente, Vigdís Finnbogadóttir. Até hoje, as mulheres islandesas lembram periodicamente do Kvennafrídagurinn, saindo mais cedo do trabalho – sempre em um horário um pouco mais tarde, como forma de simbolizar os avanços obtidos entre uma comemoração e outra. Hoje, a ação das islandesas é vista como um símbolo mundial do potencial transformador de ações não-violentas, e inspira movimentos como a Greve Internacional de Mulheres, que busca aplicar as mesmas diretrizes em escala global.

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