21 de julho de 1619: acordo encerra greve de artesãos poloneses em Jamestown (EUA), primeira greve registrada nas Américas

Há 400 anos, acordo encerrava a greve de artesãos poloneses em Jamestown (EUA), primeira greve registrada nas Américas.

Produção de vidro no assentamento de Jamestown, Virginia, início do século XVII. Ilustração: Colonial National Historical Park Virginia

Igor Natusch

A história de greves e mobilizações de trabalhadores e trabalhadoras nos Estados Unidos teve seu início oficial há exatos 400 anos. Revoltados ao se verem proibidos de participar da escolha do parlamento local, poloneses morando na colônia de Virginia promoveram, em 1619, a primeira paralisação de trabalhos de que se tem notícia nas Américas, garantindo direitos que dificilmente teriam obtido sem essa revolta contra a ordem estabelecida.

Localizada no território hoje correspondente aos estados de Illinois, Kentucky e Indiana, entre outros, Virginia foi a primeira tentativa britânica a ser bem-sucedido no continente americano, com os primeiros colonos chegando por volta de 1609. Conduzido pelo explorador John Smith, o assentamento de Jamestown foi o primeiro a prosperar no novo território, em um progresso que contou com a participação decisiva de artesãos oriundos, em especial, do reino da Polônia. Eles eram responsáveis pela produção de produtos como vidro, resina, terebintina e alcatrão, além de tábuas necessárias para construir desde bacias até navios – e tudo isso era importante não apenas para manter Jamestown funcionando, mas também como alternativa econômica, já que vários desses produtos eram exportados para a metrópole, trazendo recursos extras para a colônia. Ainda assim, e mesmo que recebessem elogios de John Smith pela capacidade de trabalho, os colonos de origem não-inglesa eram vistos como pouco mais que escravos, e não havia qualquer interesse em dar a eles a mesma consideração recebida pelos moradores de origem britânica.

Em 1619, o então governador da Virginia, Sir George Yeardley, viajou à Inglaterra para levar relatos de como a América colonial estava avançando. No navio de volta, Yeardley trouxe uma determinação dos ingleses: constituir os primeiros colégios eleitorais e conduzir a escolha, pelo voto, de representantes na região. No entanto, apenas ingleses proprietários de terra e acima dos dezesseis anos estavam autorizados a votar – o que imediatamente excluía todos os trabalhadores poloneses da vindoura eleição. 

Os registros que sobrevivem não oferecem detalhes dos acontecimentos que se deram na sequência; mas, em algum momento entre abril (quando Sir George Yeardley regressou da Europa) e julho (quando a questão foi definida na corte colonial), os trabalhadores nascidos na Polônia decidiram cruzar os braços em Jamestown, recusando-se a aceitar o papel de cidadãos de segunda classe e exigindo o mesmo direito de voto concedido aos ingleses. Uma vez que o trabalho dos grevistas era fundamental para a sobrevivência da comunidade, é de se supor que os senhores logo concluíram que a melhor resposta seria atender à demanda, ainda que adotando algumas precauções para o futuro. Registros do tribunal local, datados de 21 de julho de 1619, são a evidência mais explícita da paralisação que mexeu com a rotina no vilarejo:

“Após questionamento dos poloneses residentes em Virginia, foi acordado, a despeito de qualquer outra ordem formal, que eles terão direito a voto, e serão feitos tão livres quanto qualquer outro morador; e de forma que seus talentos em fazer resinas e alcatrão e sabão não morram com eles, está acordado que alguns jovens homens serão colocados junto a eles para aprender suas capacidades e conhecimentos, para o benefício de todo o território daqui para a frente”.

Documentos subsequentes referem-se ao “retorno ao trabalho” dos “polacos”, como eram chamados – evidência de que, mais do que uma simples reclamação, eles efetivamente interromperam suas atividades em protesto à proibição de votar. Nove dias após o acordo, mais precisamente em 30 de julho de 1619, a primeira legislatura eleita reuniu-se para sua sessão inaugural, o que indica que a votação deu-se poucos dias após a demanda dos artesãos ser atendida.

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