2 de setembro de 2016: mais de 150 milhões de trabalhadores cruzam os braços na Índia, na possível maior greve de todos os tempos

Há 3 anos, mais de 150 milhões de trabalhadores cruzam os braços na Índia, na possível maior greve de todos os tempos.

Fotografia: The Independent

Igor Natusch

Alternativa para trabalhadores e trabalhadoras em busca de melhores condições de vida há pelo menos quatro séculos, a greve segue sendo um instrumento valioso na hora de pressionar governos e empregadores. Nesta longa jornada em busca de direitos, um dos pontos mais marcantes foi registrado há exatos três anos. No dia 2 de setembro de 2016, multidões promoveram uma paralisação de 24 horas na Índia, em protesto contra as políticas do primeiro-ministro Narendra Modi – um acontecimento que vem sendo, desde então, considerado por muitos como a maior ação grevista de todos os tempos. Segundo os organizadores, entre 150 milhões e 180 milhões de pessoas cruzaram os braços; as autoridades não ofereceram nenhuma estimativa oficial de adesão.

Liderada por profissionais do setor público, a greve foi uma reação ao conteúdo das reformas econômicas propostas por Modi, que incluíam a venda de companhias estatais e a abertura de setores como aviação e defesa para investimentos estrangeiros. Segundo os sindicalistas, as mudanças trariam demissões em massa e desemprego em diferentes setores, sendo parte de uma ampla política de desmonte. Outra questão envolvia o investimento de recursos de fundos de pensão em bolsas de valores, uma vez que o governo de Modi pretendia aumentar o teto para essas operações. A difícil situação de alguns setores (como o dos trabalhadores em saúde, que tinham vários meses de salários atrasados) e a baixa cobertura legal, com menos de 4% dos trabalhadores indianos protegidos pela legislação trabalhista, ampliavam o clima de insatisfação.

Em resposta, o governo alegava que estava atendendo quase todas as demandas sindicais, e que decisões como deixar a proposição de reformas trabalhistas a cargo dos estados, e não do governo, eram indicativos de que os temores de desmonte eram infundados. Horas antes da paralisação, o governo tentou desmobilizar os grevistas ao aumentar o salário mínimo de trabalhadores não especializados de 6.396 rúpias para 9.100 rúpias – o que, à época, equivalia a cerca de 30 dólares a mais. O dia de paralisação, porém, não foi suspenso. Ao todo, dez centrais sindicais da Índia aderiram ao movimento.

Na sexta-feira definida para a greve geral, escolas e repartições não abriram as portas, plantas de produção de energia pararam as máquinas, e bancos públicos (com exceção do State Bank of India) interromperam atendimento e transações. Em estados como Kerala e Karnataka, o transporte público foi interrompido, o que teve efeitos no comércio e deixou grandes cidades completamente paradas. Porém, outras metrópoles, como Delhi e Mumbai, não chegaram a registrar interrupções em larga escala. Segundo as forças policiais, cerca de 20 pessoas foram presas no estado de West Bengal, após terem supostamente atacado dois ônibus do governo.

Apesar da ampla adesão, a mobilização não chegou a provocar mudanças significativas nas políticas de Narendra Modi. Político de ideário nacionalista, ele segue promovendo reduções de investimento em programas de saúde pública e assistência social, além de reforçar o caráter marcial da sociedade e precarizar leis de proteção ambiental. Ainda assim, os índices de popularidade do primeiro-ministro seguem altos, e a vitória de seu partido BJP nas eleições de maio deste ano garantiu mais cinco anos de mandato, o que aumenta sua força para pôr em ação políticas descritas, por analistas e críticos, como de caráter neoliberal. As mobilizações sindicais, contudo, seguem ocorrendo: ao todo, mais de 20 greves gerais ou de longo alcance aconteceram desde que Modi assumiu o poder, e a perspectiva é de mais trabalhadores e trabalhadoras na rua nos próximos anos.

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