2 de dezembro de 1943: morre o italiano Oreste Ristori, um dos mais ativos militantes anarquistas do século XX na América do Sul

Há 76 anos, morria o italiano Oreste Ristori, um dos mais ativos militantes anarquistas do século XX na América do Sul

Oreste Ristori em 1937, Firenze, Itália. Fotografia: Archivio Storico del Comune di Empoli

Igor Natusch

“O maior agitador já surgido em terras brasileiras”. A descrição, feita pelo jornalista e militante operário Everardo Dias, tornou-se um resumo histórico para a atuação de Oreste Ristori em nosso país. Morto por fuzilamento aos 69 anos, no dia 02 de dezembro de 1943, o italiano foi de fato um agitador no sentido estrito do termo, deixando como legado, além de uma extensa ficha policial em todos os países onde viveu, um grande volume de escritos e uma trajetória que o transformou em figura lendária para os anarquistas de toda a América do Sul.

Nascido em 1874, na pequena vila italiana de San Miniato, Oreste viveu a infância em meio aos camponeses pobres de sua região. Seu pai, incapaz de sustentar a família como pastor de ovelhas, mudou-se com a família para Empoli, e foi nesta cidade que o futuro militante teve seu primeiro contato com grupos anarquistas. Vivendo de forma precária e recorrendo a pequenas atividades ilegais para sobreviver, o jovem Ristori desenvolveu de forma precoce uma inclinação revolucionária; já adulto, atribuiria à adolescência difícil tanto a base para seu pensamento anarcoindividualista quanto a disposição para ações de caráter ilegalista.

Aos 17 anos, foi acusado de incendiar o prédio que guardava as cobranças de imposto em Empoli; mesmo inocentado desse crime específico, foi condenado por associação à delinquência, iniciando sua história constante de visitas à prisão. Com a repressão violenta às organizações de trabalhadores na Itália, conduzida pelo rei Umberto I, militantes como Ristori passaram a correr risco de vida, restando pouca opção a não ser fugir do país. Saindo da Itália como clandestino em um navio, ele esteve na Argentina e no Uruguai antes de chegar no Brasil, em 1904. Em todos os países citados, viveu a mesma realidade: perseguição sistemática das autoridades, com várias tentativas de prisão e deportação. 

Pouco depois de estabelecer-se em São Paulo, Oreste tornou-se diretor da revista La Battaglia, de periodicidade semanal. Nela, passou a desenvolver de forma incisiva sua campanha contra a imigração para o Brasil. Denunciando em especial a exploração dos italianos nos cafezais de São Paulo, o semanário abria amplo espaço às correspondências dos leitores, várias delas tratando diretamente da situação precária vivenciada nas fazendas. O alcance da publicação ampliou-se a tal ponto que a polícia brasileira tornou-se uma visitante frequente da redação.

Um dos alvos da chamada Lei Adolfo Gordo, que facilitava a expulsão de imigrantes envolvidos em greves no Brasil, Oreste foi expulso do país em 1912 – decisão, segundo historiadores, conectada também à sua campanha pela punição do padre Faustino Consoni, acusado de violentar uma menina de 10 anos em um orfanato. Depois de nova temporada na Bacia do Plata, ele retornaria ao país no final da década de 1920. Nesse período, surge outro vértice importante da militância de Ristori: a educação, com o esforço para estabelecer escolas libertárias influenciadas pelo educador catalão Francesc Ferrer i Guàrdia.

Aparentemente, o ativista abandona a utopia anarquista nessa época, inclinando-se ao comunismo e, a partir da chegada de Getúlio Vargas ao poder, a uma intensa militância antifascista. Foi essa última que resultou em sua expulsão definitiva do Brasil, em 1936. Mercedes Gomes, companheira que conheceu no Uruguai e tornou-se o grande amor de sua vida, ficou para trás; embora tenha acalentado durante o restante da vida a esperança de reencontrá-la, Ristori nunca conseguiu regressar à América do Sul, onde ela permaneceu.

O inquieto Oreste tentou viver de forma discreta na Itália, mas acabou preso em julho de 1943, ao participar de manifestações contra o governo fascista. Após desafiar com insultos o comandante da operação que o prendeu, foi fuzilado de forma sumária, ao lado de quatro supostos colegas de militância. Sua história foi resgatada em detalhes no livro “Oreste Ristori – uma aventura anarquista”, de Carlo Romani, no qual se baseia a maioria das informações deste artigo. 

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