1º de fevereiro de 2013: Gâmbia é o primeiro país do mundo a implementar a jornada de trabalho de quatro dias por semana

Há 7 anos, Gâmbia se tornou o primeiro país do mundo a implementar a jornada de trabalho de quatro dias por semana

Fotografia: Jerome Delay

Igor Natusch

Estabelecer como padrão o trabalho em cinco dias da semana, com dois dias consecutivos para descanso, tem sido uma luta permanente dos movimentos ligados à classe trabalhadora – um esforço que, inclusive, ainda não atingiu os objetivos para muitas classes profissionais em várias partes do mundo. Ainda mais distante, mas defendida por alguns núcleos há várias décadas, a implementação de uma jornada ainda mais curta – quatro dias de trabalho por semana, por vezes combinados com um máximo de oito horas diárias) costuma ficar restrita a iniciativas individuais de empregadores ou a momentos de crise, em que há necessidade de diminuir custos. Mas o mundo já vivenciou algumas experiências governamentais no sentido de uma semana de trabalho de quatro dias – uma das mais significativas, e até hoje a única em escala nacional, tendo início no dia 1º de fevereiro de 2013, na Gâmbia.

Iniciativa do então presidente Yahya Jammeh, a mudança tinha como objetivo declarado permitir que os moradores do pequeno país africano dedicassem mais tempo à agricultura e a atividades religiosas – mesmo sendo um estado laico e com liberdade de culto garantida, a ampla maioria dos pouco mais de 2 milhões de gambianos é de muçulmanos. A medida também tinha motivações políticas: considerado um dos mais polêmicos governantes da África à época, Jammeh enfrentava o desgaste de quase duas décadas de governo, incluindo críticas de organismos de Direitos Humanos e órgãos internacionais de saúde – os últimos, curiosamente, após o governante alegar que o país havia descoberto um chá de ervas capaz de curar a AIDS.

Válida para o setor público de Gâmbia, a regra faria com que os funcionários trabalhassem de segunda-feira a quinta-feira, das 8h da manhã às 6h da tarde. A mudança, contudo, durou apenas quatro anos, sendo cancelada pelo novo presidente do país, Adama Barrow, em 2017. Pelo novo arranjo, os gambianos passaram a trabalhar meio turno nas sextas-feiras. Curiosamente, porém, a jornada semanal ficou menor: ao invés das 40 horas semanais anteriores, a semana passou a ser de 36 horas e meia – das 8h às 16h de segunda a quinta-feira, e das 8h às 12h30min nas sextas-feiras. 

A jornada aparentemente mais flexível recebeu críticas enquanto esteve em vigor, muito embora o caráter autoritário do regime de Jammeh não abrisse muita margem para reclamações mais ostensivas. Ainda assim, a confederação de trabalhadores de Gâmbia tentou convencer o então presidente a desistir da mudança, temendo que a situação empobrecesse ainda mais os (já bastante mal pagos) servidores públicos do país.

Quando Barrow decretou o fim dos quatro dias semanais de trabalho, comerciantes locais não se constrangeram em demonstrar seu alívio. Um deles, ouvido pela agência de notícias BBC, chegou a dizer que a Gâmbia voltava a ser “parte do mundo civilizado” ao retomar os cinco dias de trabalho. Um sinal de que mudanças drásticas como essa precisam sempre levar em conta, no mínimo, a realidade local e as efetivas necessidades dos trabalhadores atingidos.

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