16 de novembro de 1956: morre o anarquista italiano Gigi Damiani, de forte atuação na militância brasileira do começo do século XX

Há 66 anos, morria o anarquista italiano Gigi Damiani, de forte atuação na militância brasileira do começo do século XX .

Damiani na década de 1930. Fotografia: Dictionaire des militantes anarchistes

Igor Natusch

A imigração europeia teve profundo impacto no Brasil do começo do século XX. Em um momento de expansão industrial e de grande demanda agrícola, a força de trabalho vinda de países como a Itália mudou profundamente o panorama do trabalho em nosso país – trazendo junto consigo ideias, pensamentos e convicções políticas que dispararam um vibrante movimento operário em solo brasileiro. Entre as muitas pessoas que contribuíram nesses tempos de militância nascente, está o italiano Luigi Damiani (ou Gigi, como era conhecido), que fez bastante barulho enquanto esteve no Brasil, entre os anos de 1897 e 1919. Falecido em 16 de novembro de 1953, o anarquista conduziu uma vida de apaixonada militância, nunca abrindo mão dos elementos centrais de seu pensamento transformador.

Nascido em Roma, na Itália, em 1876, o jovem Luigi ficou órfão de mãe muito cedo. Diante da rebeldia do jovem, o pai e a madrasta decidiram colocá-lo em reformatório para menores, conduzido por padres católicos em Nápoles. Revoltado com o tratamento recebido no local, desenvolveu profundo desprezo pela religião, um traço ideológico que o acompanhou por toda a vida. Após participar de uma reforma de internos, passou algumas semanas em uma casa de detenção – a primeira de inúmeras prisões, que se tornariam uma constante na vida do militante anarquista.

Fascinado pelo noticiário em torno do anarquista ilegalista Ravachol, responsável por atentados a bomba na França, Damiani foi descobrindo e se identificando com os princípios do pensamento anarquista. Além de trabalhar na loja do pai, teve empregos temporários em várias cidades italianas, onde envolveu-se com vários núcleos de militância e passou por uma série de detenções. Tinha apenas 21 anos em 1897, quando, já com várias prisões em sua ficha e pressionado pelas autoridades italianas, emigrou para o Brasil, fixando-se no estado de São Paulo. 

No Brasil, trabalhou especialmente como pintor decorador, enquanto exercia uma incansável militância. Envolveu-se com várias publicações de caráter operário e social, tanto em italiano quanto em português, tendo papel destacado nos jornais Il Risveglio, O Despertar, Amigo do Povo, A Plebe e La Battaglia, entre outros. A partir de 1901, foi um dos principais nomes no grupo libertário Pensiero e Azione, um dos mais ativos na São Paulo do começo do século passado. 

A partir da década de 1910, Gigi Damiani passou a ter um envolvimento mais intenso com o movimento operário propriamente dito. Mesmo sem tornar-se de fato um sindicalista revolucionário, assumiu papel importante na organização de greves, além de denunciar as péssimas condições de trabalho impostas aos imigrantes italianos no Brasil de então. Escreveu um manifesto a favor da greve dos pedreiros paulistas em agosto de 1911, e foi um dos organizadores do Comitê de Defesa Proletária que negociou os termos para encerrar a greve geral de 1917 em São Paulo. Essa atuação fez com que fosse perseguido pelas autoridades e condenado à deportação do Brasil, o que se concretizou no final de 1919. 

De volta à Europa, o inquieto Gigi manteve uma militância ativa. Além de colaborar com Errico Malatesta na redação do Umanità Nova, atuou incansavelmente contra as autoridades clericais e a imigração italiana ao Brasil. Porém, a chegada dos fascistas italianos ao poder o forçou ao exílio. Passou por França, Bélgica, Alemanha, Espanha e Tunísia até que, com o fim da Segunda Guerra Mundial e a derrota do regime fascista, voltou a morar em Roma. Depois de uma vida inteira de atividade política e social, Gigi Damiani faleceu, aos 77 anos, na mesma cidade em que nasceu – deixando como legado uma série de textos e artigos, além de contribuições concretas às organizações de trabalhadores de todos os lugares pelos quais passou.

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